As Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina, na Itália, começaram na última sexta-feira (6). Desde a abertura e até o encerramento, no dia 22, cerca de 85% da neve usada nas competições não cairá do céu. Ela será produzida por máquinas, a partir de água bombeada para grandes reservatórios em altitude e pulverizada por centenas de canhões.
No total, serão cerca de 2,4 milhões de metros cúbicos de neve artificial, em um processo que consumirá 946 milhões de litros de água. O volume é suficiente para encher aproximadamente um terço do estádio do Maracanã.
Para garantir as pistas das provas ao ar livre, mais de 125 canhões foram instalados em cidades como Cortina d’Ampezzo, Bormio e Livigno, apoiados por reservatórios construídos em áreas de montanha.
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Os dados, reunidos pelo Instituto Talanoa, evidenciam uma tendência que vem se consolidando há mais de uma década. O motivo talvez você já tenha adivinhado: o avanço do aquecimento global.
Os invernos estão cada vez mais curtos, mais quentes e menos previsíveis. Mesmo em regiões tradicionalmente associadas à neve abundante, como os Alpes, o número de dias com temperaturas abaixo de zero vem caindo de forma consistente.
Em Cortina, as temperaturas médias de fevereiro subiram 3,6 °C desde 1956, quando a cidade sediou os Jogos pela última vez. Na década seguinte àquela edição, eram registrados em média 214 dias por ano abaixo de zero; hoje, são cerca de 173, uma queda de quase 20%. Além disso, a profundidade média da neve em fevereiro diminuiu cerca de 15 centímetros desde os anos 1970.
O fenômeno não é local. Uma análise da organização Climate Central mostra que todas as 19 cidades que sediaram os Jogos de Inverno desde 1950 aqueceram, em média, 2,7 °C.
Diante desse cenário, a produção de neve artificial passou a ser parte estrutural dos Jogos. Em Sóchi 2014, na Rússia, cerca de 80% da neve foi fabricada. Em PyeongChang 2018, na Coreia do Sul, o índice chegou a 98%. Em Pequim 2022, na China, 100% das provas ocorreram sobre neve artificial.
A tecnologia, porém, tem limites. Ela precisa de temperaturas negativas por períodos prolongados para se fixar adequadamente. Quando o termômetro oscila em torno de zero, aumentam os riscos de chuva sobre as pistas, formação irregular da cobertura e superfícies mais duras e escorregadias.
Além disso, a produção contínua exige grandes volumes de água e energia, pressionando recursos hídricos locais, alterando o regime natural dos solos e ampliando o impacto ambiental em regiões de montanha já sensíveis às mudanças climáticas.
A neve produzida por máquinas é mais densa e contém menos ar do que a natural. Por isso, absorve menos o impacto das quedas, o que aumenta o risco de lesões para os atletas. Ao se compactar com mais facilidade, ela também pode retardar o derretimento na primavera, interferindo no ciclo natural da água e na vegetação local.
O problema se agrava nos Jogos Paralímpicos de Inverno, realizados algumas semanas depois das Olimpíadas, geralmente em março. Desde 1992, qualquer cidade candidata precisa sediar ambos os eventos, o que exige um período ainda mais longo de frio consistente.
Um estudo recente avaliou 93 localidades que já sediaram ou poderiam sediar os Jogos. Até 2050, apenas quatro seriam capazes de realizar as competições sem qualquer uso de neve artificial: Niseko, no Japão; Terskol, na Rússia; e Val d’Isère e Courchevel, na França.
Pesquisas com atletas e treinadores reforçam a percepção de que o esporte está mudando. Levantamentos internacionais indicam que mais de 90% dos profissionais de elite se dizem preocupados com o impacto das mudanças climáticas. Temporadas mais curtas obrigam equipes a viajar entre continentes em busca de neve, encarecendo o treinamento e aumentando a desigualdade entre países e atletas.
O Comitê Olímpico Internacional, por sua vez, afirma que a segurança dos atletas é a prioridade na preparação das pistas e promete tornar os Jogos futuros “climaticamente positivos” a partir de 2030. Entre as soluções discutidas estão: antecipar o calendário, concentrar eventos em fevereiro ou adotar um modelo rotativo com poucas sedes climaticamente confiáveis.
Vale lembrar que o problema vai além das competições. A neve funciona como um reservatório natural de água, liberando-a gradualmente ao longo do ano. Com menos neve acumulada no inverno, rios têm menor vazão na primavera e no verão, reservatórios sofrem pressão adicional e aumenta o risco de escassez hídrica em períodos de seca.
A redução da cobertura de neve também afeta a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento de cidades que dependem do degelo. Ecossistemas adaptados ao frio perdem estabilidade, espécies enfrentam dificuldades de sobrevivência e economias locais baseadas no turismo de montanha tornam-se mais vulneráveis e imprevisíveis.
Observações por satélite mostram que a extensão do gelo marinho do Ártico permanece abaixo da média histórica. Em setembro de 2012, foi registrada a menor área já observada, com 3,8 milhões de km². Em dezembro de 2025, o gelo cobria 12,45 milhões de km², ainda inferior à média do período 1991–2020.
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Fonte: abril






