É apenas o início da derrocada anunciada da medicina brasileira, levando com ela a saúde do país. Nas últimas duas décadas temos acompanhado, de mãos atadas, o aumento do número de faculdades médicas nos quatro cantos do Brasil, uma expansão rápida e indiscriminada, pautada na mercantilização da medicina, muitas vezes sem infraestrutura adequada, comprometendo a formação acadêmica.
Não há como fechar os olhos à falta de hospitais-escolas, corpos docentes insuficientes, superlotação de estudantes e, como resultado de tudo isso, um número expressivo de médicos formados e atirados ao mercado sem a mínima qualificação e, pior, sem vagas suficientes para especializar, pelo menos, metade desses profissionais.
Alguns são médicos que não se pós-graduam porque se graduaram mal, aumentando consideravelmente o número de generalistas. O crescimento de cursos médicos concentra-se no setor privado, com oitenta por cento das vagas acadêmicas. A falta de infraestrutura, associada a um grande número de vagas para os novos alunos e à flexibilidade da nota de corte, que se adequa ao número necessário para o preenchimento das vagas, sem o limite do número de chamadas, estas com o objetivo comercial de preencher todas as vagas.
Parece lógico, salvo engano, que as últimas chamadas serão preenchidas por aqueles que não obtiveram notas mínimas para fazer jus ao ingresso no curso médico, um curso que deve capacitar pessoas para tratar o sofrimento e salvar vidas.
O número de médicos no Brasil cresceu, nos últimos anos, em números relativos, quase dez vezes mais que a população brasileira. Isso é sério, mas não é o pior dos problemas. O mais impactante é admitir que grande parte desse quantitativo entra no mercado de trabalho sem a mínima qualificação para exercer a profissão médica, que lida com vidas humanas e que um erro no exercício profissional pode levar a danos irreparáveis, irreversíveis e, até mesmo, à morte.
A divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED) 2025 acende a discussão de uma preocupação que vem crescendo ano após ano. Assim sendo, considerando as observações acima, elencamos algumas providências, que julgamos imperiosas, a serem tomadas pelo poder público, para evitar uma tragédia anunciada, mas que ainda pode ser evitada, tais como:
- Regular, de acordo com critérios estabelecidos pelo Conselho Federal de Medicina, a abertura de novas faculdades médicas;
- Não permitir o aumento de vagas daquelas que já existem;
- Exigir para ingresso, em determinada instituição de ensino, nota de corte mínima, não inferior a 60%, que não seja modificada para a primeira chamada, assim como para as chamadas subsequentes;
- Exigir a unificação dos testes para ingresso nas diferentes universidades ou que sejam elaborados por instituições reconhecidas ao exercício dessa finalidade;
- Exigir que cada instituição de ensino médico disponha de hospital geral com preceptoria e infraestrutura voltada ao ensino.
- Em contrapartida, haja vista o grande aumento de profissionais médicos formados todos os anos, há necessidade de implementar o número de residências médicas, com infraestrutura e preceptoria adequadas.
Levando em conta tudo aqui considerado, a Academia de Medicina de Mato Grosso do Sul vê a questão atual como uma urgência de saúde pública e se posiciona favorável à criação de barreiras ao exercício profissional dos estudantes que não alcançaram a média mínima de aprovação, além de estabelecer sanções às universidades com notas 1 e 2, como a redução do número de vagas para aquelas com nota 2 e impedimento de iniciar novas turmas para aquelas com nota 1.
Fonte: primeirapagina






