Astrônomos identificaram um novo corpo celeste potencialmente habitável a cerca de 150 anos-luz da Terra. Batizado de HD 137010 b, ele possui tamanho muito próximo ao do nosso planeta, orbita uma estrela parecida com o Sol e apresenta uma chance real, ainda que incerta, de reunir condições para a existência de água líquida em sua superfície.
A descoberta foi publicada na revista científica The Astrophysical Journal Letters e envolve uma ampla colaboração internacional, liderada por pesquisadores da Universidade do Sul de Queensland (UniSQ), na Austrália.
O HD 137010 b é classificado, por enquanto, como um “candidato a planeta”. Isso significa que sua existência ainda precisa ser confirmada por novas observações. No entanto, os dados disponíveis indicam fortemente que se trata de um corpo rochoso, semelhante à Terra.
Siga
As estimativas também apontam que ele tem apenas cerca de 6% a mais de diâmetro do que o nosso planeta e completa uma volta ao redor de sua estrela em aproximadamente 355 dias, um período orbital muito parecido com o ano terrestre.
No caso, a estrela em torno da qual ele orbita, chamada HD 137010, pertence à classe das anãs K. Elas são um pouco mais frias e menos brilhantes do que o Sol, mas ainda relativamente estáveis. Por causa disso, mesmo estando a uma distância orbital comparável à da Terra em relação ao Sol, recebe menos energia – menos de um terço da luz e do calor que chegam a nós.
Essa condição o coloca na borda externa da chamada zona habitável de sua estrela, a faixa em que, em teoria, a água poderia existir em estado líquido na superfície.
Segundo os pesquisadores, essa posição faz do HD 137010 b uma espécie de intermediário entre a Terra e Marte. Seu clima é mais parecido com o do Planeta Vermelho: as estimativas atuais indicam que a temperatura máxima da superfície do HD 137010 b pode chegar a cerca de -68 °C, muito próxima da média marciana, que é de aproximadamente -65 °C.
Apesar do frio intenso estimado, os cientistas destacam que a presença ou não de uma atmosfera faz toda a diferença. Se ele tiver uma semelhante à da Terra ou de Marte, provavelmente seria mais frio do que a Antártida. Mas, se for envolto por uma camada atmosférica mais densa, rica em gases como dióxido de carbono, o efeito estufa poderia elevar a temperatura o suficiente para permitir água líquida.
Modelos usados pela equipe sugerem cerca de 40% de chance de o planeta estar dentro de uma zona habitável mais “conservadora” e pouco mais de 50% dentro de uma definição mais “otimista”, que admite condições menos estritas.
Identificação
O HD 137010 b foi identificado a partir de dados coletados pela missão K2, uma extensão do telescópio espacial Kepler, da Nasa, que operou entre 2014 e 2018. O Kepler monitorava continuamente a luz emitida por milhares de estrelas em busca de pequenas quedas de luminosidade.
Essas quedas ocorrem quando um planeta passa na frente de sua estrela, do ponto de vista do telescópio, bloqueando uma fração mínima da luz. Esse fenômeno é chamado de trânsito. No caso do HD 137010 b, os astrônomos registraram apenas um único trânsito, em 2017, que durou cerca de 10 horas. Para efeito de comparação, um observador distante veria a Terra levar cerca de 13 horas para cruzar a frente do Sol.
O problema é que um único trânsito não basta para confirmar um planeta com total segurança. Em geral, os cientistas precisam observar esse escurecimento se repetir em intervalos regulares. Como o HD 137010 b leva quase um ano para dar uma volta completa em torno de sua estrela, esses trânsitos são raros. Por isso, o sinal passou despercebido nas análises automáticas iniciais dos dados do Kepler.
Pela 1ª vez, astrônomos flagram planetas nascendo ao redor de estrela
Depois desse sinal de 2017, os pesquisadores passaram anos verificando se ele poderia ter outra origem. Eles analisaram, por exemplo, se a queda de brilho poderia ser causada por uma estrela próxima e não detectada, por uma estrela dupla ou por algum outro efeito astronômico confundível com o sinal de um planeta passando em frente à estrela.
Só após descartar essas possibilidades é que a hipótese de um corpo celeste do tamanho da Terra se mostrou a explicação mais consistente.
Ao todo, os astrônomos já catalogaram mais de 6 mil planetas fora do Sistema Solar, mas a maioria deles é grande, muito quente ou ambos. Entre os poucos do tamanho da Terra encontrados na zona habitável, a maior parte orbita estrelas anãs vermelhas, menores e mais ativas do que o Sol.
Se for confirmado, o HD 137010 b poderá ocupar um lugar especial no estudo de exoplanetas. Embora os instrumentos atuais não sejam capazes de caracterizá-lo completamente, ele já é visto como um alvo prioritário para observações futuras.
Missões como o TESS, da Nasa, e o CHEOPS, da Agência Espacial Europeia (ESA), podem ajudar a confirmar novos trânsitos. Mais adiante, telescópios de próxima geração e projetos ambiciosos, como o Observatório de Mundos Habitáveis da Nasa ou o telescópio espacial PLATO, da ESA, poderão tentar observar diretamente o planeta ou estudar sua atmosfera em busca de gases associados a processos biológicos.
Fonte: abril






