Saúde

Estudo revela que plantas rasteiras do Cerrado podem viver mais de 100 anos

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  • No interior do Estado de São Paulo, em uma clareira remota do Cerrado sudestino, há arbustos, raríssimas árvores baixinhas, erva e capim – muito capim. Sob o céu limpo e azul, a vegetação se estende por quilômetros, e dificilmente passa da altura do joelho. “E o que tem nesse lugar?”, alguém pergunta. Depois de uma pausa, vasculhando com os olhos à procura de alguma coisa, é provável que você responda: “Nada”.

    Nada mais distante da realidade. Agora, cientistas estão descobrindo que essas paisagens aparentemente vazias na verdade são muito mais ricas e diversas do que se imaginava. Esses são os campos naturais, ecossistemas antigos e estáveis que cobrem cerca de 20% da superfície terrestre.

    Nesses biomas, dominados por plantas pequenas como ervas e capins, as árvores são raras ou ausentes. As áreas, nunca cultivadas. Mesmo assim, no espaço de um único metro quadrado eles podem abrigar em média 15 espécies diferentes de planta, podendo chegar a 60 espécies. Algumas dessas plantas viveram por mais de uma centena de anos – e servem como verdadeiras cápsulas do tempo da história dos campos brasileiros.

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    Em dois estudos, pesquisadores brasileiros do projeto Biota Campos – um grupo multidisciplinar focado em pesquisar os campos naturais – analisaram os órgãos subterrâneos dessas plantas rasteiras, em busca de descobrir a idade desses ecossistemas.

    Em artigo publicado no periódico Dendrochronologia, os cientistas analisaram mais de 200 plantas pequenas, de 107 espécies diferentes, coletadas em regiões de Cerrado e Mata Atlântica. A maioria das plantas não passava dos 10 anos de idade, principalmente aquelas extraídas dos campos de altitude da Mata Atlântica. No Cerrado, porém, algumas raízes ultrapassavam um século de idade. A planta mais velha encontrada pelos pesquisadores datava de 136 anos.

    “Aquela planta tem a altura do meu joelho. Eu falava: ‘Ah, ela deve ter nascido de semente 5 anos atrás, queimou e brotou’. Pensar que ela tinha mais de 100 anos? Jamais”, relata Giselda Durigan, engenheira florestal líder do projeto, que participou da coleta de amostras. “Para quem olha o tamanho das plantas, o tamanho do caule, a gente imagina a idade do broto. A gente não imagina que lá embaixo tem uma raiz que tá viva há tanto tempo”, diz.

    O trabalho é um dos primeiros no Brasil a aplicar, de maneira sistemática, a herbocronologia – ciência que estuda a idade de plantas pequenas. Trata-se de um ramo da dendrocronologia, técnica que analisa os anéis de crescimento para estimar a idade das plantas. Em árvores grandes, basta cortar o tronco na transversal e observar: do centro para fora, é como se emanassem círculos de tamanhos cada vez maiores, em que cada uma dessas seções na madeira corresponde a um ano.

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    (Tiago M. Gomes-Pinto./Reprodução)

    Tiago Marcilio Gomes Pinto, engenheiro florestal envolvido nos estudos, explica que os anéis de crescimento são como “casacos”, que a planta veste, um por cima do outro, a cada ano, sem nunca tirar. “A quantidade de casacos que ela vai colocando seria a quantidade de invernos que ela passou, por exemplo”, afirma.

    Já em plantas pequenas, esse processo acontece debaixo da terra, na raiz. De acordo com a bióloga Cláudia Fontana, nome à frente do estudo, “muitas plantas pequenas formam uma estrutura de raiz (vamos usar ‘raiz’ como termo geral) que forma madeira também. Então, sempre que há essa produção de um tecido secundário na planta, existe essa possibilidade da formação dos anéis de crescimento tal qual temos no tronco”.

    Nesse tipo de vegetação, porém, as partes que ficam por cima da terra estão sempre se renovando: à medida que fatores como o fogo destroem as partes aéreas (acima do solo) das plantas, os pedaços destruídos rebrotam, enquanto a estrutura subterrânea continua intacta. “É como um tampão que protege essa essa estrutura aí embaixo. Inclusive é ali que estão guardadas as gemas, que vão rebrotar e nascer os novos caules”, explica a bióloga.

    Na ligeira maioria das amostras coletadas, os anéis de crescimento da raiz eram visíveis e muito bem demarcados. Nesse caso, com a raiz cortada na transversal, os pesquisadores foram capazes de lixar o material para revelar os anéis. Mas algumas plantas eram pequenas demais para serem lixadas, o que levou os cientistas a procurarem técnicas ainda mais sofisticadas.

    Foi o que fizeram em outro estudo, publicado no periódico Flora. Dessa vez, os pesquisadores usaram corantes para enxergar as células dos anéis de crescimento por diferentes “filtros” químicos, sob a lente de um microscópio. Em lâminas, eles pingaram gotas de corantes que, a depender da cor, se atraiam por substâncias específicas.

    Isso deixava as células mais nítidas e legíveis, e permitiu com que os pesquisadores diferenciassem os anéis verdadeiros (formados entre épocas de seca e chuva) e os falsos (que se formam, por exemplo, quando chove em uma época de seca, e a planta se “confunde”).

    “Na solução junto com a amostra, o azul, por exemplo, vai ser mais atraído pela celulose e o rosa vai ser mais atraído pela lignina. E, como o anel de crescimento é marcado mais pela lignina – por exemplo, no anel de crescimento mais tardio, em que a planta é mais resistente –, essa variação na composição química refletida, visualizada através dos corantes, vai melhorar a nossa visualização”, explica Tiago, nome à frente do segundo estudo.

    Células dos anéis de crescimento em plantas pequenas sob diferentes filtros de cor
    “A gente vê que cada célula tem um tamanho, mas tem uma região ali que as células vão ficando cada vez mais achatadas. O achatamento dessas células vai indicar que seria o final do anel. Então, justamente onde tem esse achatamento do anel e fica uma cor mais viva, seria o limite, e a gente contaria isso como um ano”, explica o engenheiro ambiental Tiago Marcilio Gomes Pinto. Nas figuras A e B, cada seta corresponde a um ano. (T.M. Gomes-Pinto et al/Reprodução)

    Em plantas onde as seções são mais estreitas, no espaço de apenas 5cm, podem caber mais de 50 anos. A nível microscópico, esse espacinho conta muita história. “O anel de crescimento contém todo o histórico de vida dessa planta: quando ela nasceu, em que ritmo ela cresceu, e em quê o ambiente afetou esse crescimento dela”, explica Cláudia Fontana.

    A dendrocronologia pode revelar mais do que só a idade da planta. Se um anel da raiz for muito estreito, por exemplo, é provável que, naquele ano, certos fatores climáticos como a temperatura e a falta de chuvas tenham atrapalhado o crescimento da planta. Em outros casos, alterações repentinas nesses padrões de crescimento podem indicar que, naquela época, a vegetação foi afetada por alguma doença. Comparando as raízes de plantas, o que se tem é um retrato do passado climático daquele ecossistema.

    “No caso dessas plantas pequenas que ficam na parte subterrânea, a gente até brinca que são cápsulas do templo justamente por causa disso: porque elas têm capacidade de guardar a história da planta e da população em muitos casos. E, no caso do Cerrado, ela tá abaixo do solo, então ela tá livre de qualquer ameaça de fogo, que vai ter essa remoção constante na parte aérea. Na parte subterrânea, tá tudo guardadinho”, complementa Tiago.

    “Para as árvores, nas florestas, a dendrocronologia já é usada para entender as mudanças de clima de 100, 200 anos. A gente não tinha a menor ideia de como fazer isso com os campos. E, agora, sabendo que essas plantas dos campos podem passar de um século, é um horizonte que se abre pra gente fazer os mesmos estudos de correlacionar o crescimento dessas raízes com as as variações de clima ao longo desse século, desses 136 anos ou muitos mais para as plantas mais velhas que foram encontradas. Então, é uma novidade muito interessante que a gente não esperava ter para ampliar o esse tipo de estudo em campo”, diz Giselda Durigan.

    Campos em perigo

    A negligência com os campos naturais acontece em escala global – e pesquisadores de todo o mundo querem que a ciência e as políticas públicas corram atrás desse prejuízo. Em 2021, um grupo internacional de cientistas publicou um texto intitulado Combatting global grassland degradation, denunciando a degradação desses ecossistemas. De acordo com os autores, as políticas de desenvolvimento sustentável e conservação ambiental têm ignorado a importância desses ecossistemas.

    Giselda Durigan é uma das signatárias do texto. Segundo ela, “dificilmente você ouviu falar de alguma campanha, alguma mobilização para a conservação dos campos naturais, porque as pessoas nem sabem que eles existem. A maioria das pessoas pensa que essas áreas que não tem árvores são áreas degradadas que precisam ser reflorestadas”.

    A cientista lidera o Biota Campos, um projeto de biólogos, ecólogos, engenheiros ambientais e diversos outros pesquisadores que procuram preencher a lacuna de conhecimento sobre os campos naturais no Brasil. Até agora, os pesquisadores já estudaram mais de 400 localidades.

    “Nós fomos pro campo checar e descobrimos que existe o dobro de áreas de campos naturais do que a gente pensava em São Paulo. Nem o mapeamento oficial do estado e nem o MapBiomas acertou na interpretação das imagens. Então é um erro gigante que eles cometeram. Então nós vamos aprimorar os mapas”, Durigan afirma.

    Esses ecossistemas têm suas próprias peculiaridades. São, por exemplo, acostumados ao fogo. Quando um incêndio destrói o caule das plantas do Cerrado, a vegetação é adaptada a rebrotar e repor o material perdido no ano seguinte. “O Cerrado é tão poderoso que ele não morre com fogo. Ele simplesmente tá lá. Ele perde as folhas que queimam, mas ele continua lá com as mesmas plantas”, diz a pesquisadora.

    Fotografia de um campo seco Cerrado-Serra da Canastra.
    (Giselda Durigan/Reprodução)

    “Eles são, vamos dizer assim, os o berço das águas. Então, é nesses ecossistemas abertos, campestres – nos páramos, nos campos de altitude, nos campos da Chapada dos Veadeiros, do Espinhaço – que a água da chuva infiltra para recarregar as nascentes de oito das 12 bacias hidrográficas do país. Então, se você mata esses ecossistemas, se você substitui por eucalipto, por exemplo, acabou, vão secar essas nascentes. Se você faz a cidade se expandir para cima desses campos, a água da chuva que infiltrava ali vai escorrer pelas ruas, pelas calçadas, pelos telhados e vai virar esgoto”, Durigan alerta.

    De acordo com a pesquisadora, o que mais ameaça os campos naturais hoje é a conversão desses espaços para outros usos da terra –alguns exemplos são a agricultura soja e milho, ou plantio de árvores não-nativas àqueles ecossistemas. Em comparação a florestas, restaurar os campos naturais pode ser bem mais difícil. Antes de tudo, porque ainda se sabe pouco sobre esses biomas. Depois, porque, apesar de rebrotarem com facilidade, uma vez retiradas do chão, suas plantas dificilmente germinam por meio de sementes.

    “Outra ameaça que nós constatamos ao longo do trabalho é a expansão urbana, porque os campos que sobraram estão em paisagens lindas, em que todo mundo quer fazer um condomínio, chácara de turismo. E, como a lei não protege os campos, porque só protege o que tem árvores, é facílimo. Se tiver uma área de campo cerrado, ali perto de São Paulo, você só precisa notificar a CETESB [Companhia Ambiental do Estado de São Paulo] de que você vai fazer um condomínio ali, mas você não tem que compensar, porque não tem árvore. A lei do cerrado só protege o cerrado que tem árvores, mas não protege os campos”, afirma a pesquisadora.

    Em setembro, o Biota Campos fará um workshop na Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente para discutir os problemas da legislação e propor políticas públicas de conservação para os campos naturais. O projeto planeja indicar, dentro das 50 áreas de campo natural estudadas, quais deveriam ser transformadas em unidades de conservação. “Nós vamos dar valor biológico para cada remanescente e, enfim, vamos dar pro governo as ferramentas para a tomada de decisões corretas em relação aos campos”, afirma a pesquisadora.

    Fonte: abril

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