Bovinos podem ser bem mais inteligentes do que pensávamos. É isso que sugere Veronika, uma simpática vaquinha doméstica que aprendeu, sozinha, a coçar as costas.
Nos pastos austríacos onde ela passa seus dias, a vida se move com muita calma. Veronika, diferente da maioria das vacas, é um bichinho de estimação, que faz companhia ao fazendeiro Witgar Wiegele em seu terreno na cidadezinha de Nötsch im Gailtal, não muito longe da fronteira italiana.
Para Veronika, cercada de campos verdes, árvores altas, montanhas ainda mais altas e seletas casas baixinhas, seu lar mais deve parecer um paraíso bovino. Seu cotidiano consiste em perambular e descansar na grama e xeretar as coisas lançadas sobre o chão. Vez ou outra, quando as moscas vêm lhe fazer mal, ela também acha um jeito de se coçar: apanha, com a língua, uma enxada ou qualquer outra ferramenta e manuseia o objeto com a boca para chegar em partes de seu corpo que ela nunca alcançaria normalmente.
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Por mais que a vaquinha faça o gesto parecer algo natural, esse comportamento chamou a atenção de cientistas, que viajaram até o interior da Áustria para estudá-la. O uso de ferramentas é algo relativamente raro no reino animal. Esse tipo de comportamento já foi observado entre seletas espécies como macacos, elefantes, golfinhos e polvos, mas nunca em uma vaca.
Agora, graças a Veronika, cientistas foram capazes de registrar, pela primeira vez, ferramentas sendo usadas por bovinos domésticos, e o feito foi descrito em um artigo publicado no periódico Current Biology, nesta segunda-feira (19).
Os pesquisadores colocaram os talentos da vaquinha para teste. No decorrer de vários dias, eles observaram como Veronika usaria uma vassoura para se livrar dos comichões. Ao longo de dez experimentos, reproduzidos em sete sessões, ela se coçou 76 vezes.
Não apenas isso; os cientistas também notaram que a vaquinha usava partes diferentes da vassoura para coçar regiões diferentes de seu corpo. Com o lado das cerdas duras, ela coçava o couro resistente de suas costas. Já para as dobras mais sensíveis de sua barriga, ela virava o instrumento para usar o cabo.
Isso – usar uma mesma ferramenta de maneiras distintas para propósitos diferentes – é algo ainda mais raro na natureza. Até hoje, salvo o caso dos seres humanos, essa prática só havia sido observada entre chimpanzés.
É uma habilidade que indica algum nível de esperteza entre as vaquinhas. Usar um objeto de maneiras criativas para resolver problemas específicos requer flexibilidade cognitiva e alguma forma de pensamento sofisticado. Porém, para o senso comum, tamanha habilidade nas mãos, patas e boca de uma vaca pode ser surpreendente.
O gado nunca foi conhecido por sua inteligência. A primeira coisa que o artigo referencia não é outro autor ou estudo, mas sim uma tirinha da série Far Side, criada pelo quadrinista Gary Larson. Em quadrinho único, ele desenha uma vaca, de pé, em frente a uma série de instrumentos rudimentares e mal feitos. A legenda diz “Ferramentas de vaca”.
Quando o desenho foi publicado pela primeira vez, em 1982, praticamente ninguém entendeu absolutamente nada. Tamanha foi a confusão que Larson se viu obrigado a publicar um comunicado explicando a piada. “Por mais que eu nunca tenha conhecido uma vaca capaz de criar ferramentas”, escreve, “eu tenho certeza de que, se isso acontecesse, elas (as ferramentas) careceriam de algo no quesito da sofisticação”
Os talentos de Veronika colocam esse entendimento em cheque. “Uma coisa que diferencia Veronika das demais vaca não é, talvez, que ela seja, tipo, um Einstein bovino, mas sim que Veronika era cuidada como um pet”, disse ao New York Times a pesquisadora Alice Auersperg, especialista em inovação animal e coautora do estudo.
Foi há mais ou menos dez anos que Witgar Wiegele, o fazendeiro, começou a notar Veronika usando ferramentas para se coçar – e, desde então, ela só ficou melhor. Na flor de seus 13 anos, ela é quase uma senhorinha, e já viveu bem mais que a maioria de suas colegas de espécie. A expectativa de vida das vacas varia entre 15 e 20 anos, mas poucas realmente têm a chance de viver por tanto tempo. Enquanto vacas leiteiras geralmente são abatidas aos 6 anos de idade, animais criados para o abate tendem a ser mortos entre os 2 e 4 anos de idade.
Veronika, porém, teve uma vida longa e estimulante, o que provavelmente permitiu com que sua cognição se desenvolvesse. A ideia, para os pesquisadores, é que a inteligência dos bovinos pode ser bem maior do que se cogitava.
“Ela não criou ferramentas como a vaca na tirinha de Gary Larson, mas selecionou, ajustou e usou uma com destreza e flexibilidade considerável. Talvez o verdadeiro absurdo não esteja em imaginar uma vaca que use ferramentas, mas sim, em assumir que tal coisa nunca poderia existir”, concluem os autores no artigo.
Fonte: abril






