O ano de 2025 terminou com um novo sinal de alerta sobre o ritmo do aquecimento global. Dados divulgados por instituições científicas internacionais mostram que ele foi o terceiro mais quente já registrado no planeta desde o início das medições, no século 19. O resultado se soma a 2023 e 2024, formando um trio de anos excepcionalmente quentes e sem precedentes na história recente do clima.
Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas do programa europeu Copernicus Climate Change Service, a temperatura média global em 2025 foi de 14,97 °C. Isso significa que o planeta esteve cerca de 1,47 °C mais quente do que no período pré-industrial, referência usada para medir o impacto da atividade humana sobre o clima.
Esse intervalo corresponde à segunda metade do século 19, antes da industrialização em larga escala, quando a queima de carvão, petróleo e gás ainda não era dominante e a degradação de ecossistemas ocorria em ritmo muito menor.
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O ano mais quente da série histórica segue sendo 2024. Logo atrás vêm 2023 e 2025, separados por apenas centésimos de grau. Para os cientistas, essa proximidade mostra que o aquecimento deixou de ser um fenômeno pontual e passou a se consolidar como um novo patamar de temperatura global.
As conclusões se baseiam em bilhões de medições coletadas por satélites, navios, aeronaves e estações meteorológicas. As análises são feitas de forma independente por centros de monitoramento climático da Europa, dos Estados Unidos, do Japão e da China.
O dado mais preocupante do relatório está na média dos últimos três anos. Considerados em conjunto, 2023, 2024 e 2025 ultrapassaram o aumento de 1,5 °C em relação ao período pré-industrial. Esse número não é aleatório; ele foi definido em 2015, no Acordo de Paris, como um limite para evitar os impactos mais graves das mudanças climáticas.
O acordo fala de um aquecimento calculado ao longo de décadas, não de anos isolados. Ainda assim, o fato de três anos seguidos terem ficado acima desse patamar indica que o planeta está se aproximando rapidamente de um nível de aquecimento considerado perigoso. Em outras palavras, o que antes era projetado para o futuro distante começa a aparecer no presente.
Os números de 2025 também mostram que os últimos 11 anos foram os 11 mais quentes já registrados. Para Florian Pappenberger, diretor-geral do European Centre for Medium-Range Weather Forecasts, que coordena o Copernicus, isso confirma que o mundo vive a década mais quente da história moderna.
Em comunicado, ele afirmou que ainda é possível se preparar e reduzir danos, “mas apenas quando a ação é orientada por evidências científicas sólidas”.
Calor generalizado
O calor de 2025 se espalhou por quase todo o planeta. Janeiro foi o mês de janeiro mais quente já observado globalmente. Ao longo do ano, quase todos os meses ficaram mais quentes do que qualquer mês equivalente antes de 2023. Apenas fevereiro e dezembro escaparam dessa regra. Isso mostra que o aquecimento não se concentrou em uma estação específica, mas marcou praticamente todo o calendário.
Nos trópicos, onde ficam regiões como a Amazônia, a África equatorial e o Sudeste Asiático, as temperaturas foram um pouco menos extremas do que em 2023 e 2024. Parte disso se explica pela presença de uma La Niña fraca ou de condições próximas da neutralidade no Oceano Pacífico.
A La Niña tende a esfriar levemente o clima global, ao contrário do El Niño, que costuma aquecê-lo. Mesmo assim, as temperaturas nessas áreas continuaram acima da média histórica.
Nas regiões polares, o aquecimento foi ainda mais evidente. A Antártida teve o ano mais quente já registrado, enquanto o Ártico viveu o segundo mais quente de sua série histórica. Esse aumento de temperatura teve efeitos diretos sobre o gelo marinho.
Em fevereiro de 2025, a área total de gelo nos dois polos atingiu o menor valor desde o início das observações por satélite, no fim da década de 1970. No Ártico, alguns meses registraram a menor extensão de gelo já observada para a época do ano.
A Europa seguiu o mesmo padrão. O continente teve, em 2025, seu terceiro ano mais quente já registrado. A temperatura média ficou 1,17 °C acima da média observada entre 1991 e 2020. Março foi especialmente atípico: foi mais de 2 °C mais quente do que o normal para o mês, um desvio considerado muito alto em termos climáticos.
Os cientistas explicam esse aquecimento recente principalmente por dois fatores. O primeiro é o acúmulo contínuo de gases de efeito estufa na atmosfera, liberados sobretudo pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento. Esses gases funcionam como uma camada invisível que impede parte do calor de voltar ao espaço.
O outro fator é o aquecimento dos oceanos, que absorvem a maior parte do excesso de calor gerado pelo aquecimento global. Cerca de 90% desse calor extra fica armazenado nos oceanos. Em 2025, a temperatura média da superfície do mar foi uma das mais altas já registradas.
Dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) mostram que o calor acumulado nos oceanos continuou aumentando, o que ajuda a explicar tempestades mais intensas, chuvas mais fortes e a elevação do nível do mar.
As consequências desse aquecimento já são sentidas no dia a dia. Em 2025, metade das áreas terrestres do planeta teve mais dias do que o normal com calor extremo, aquele em que a sensação térmica ultrapassa 32 °C. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta o calor intenso como a principal causa de mortes relacionadas ao clima no mundo.
Em regiões secas e ventosas, as altas temperaturas também favoreceram grandes incêndios florestais. A Europa, por exemplo, registrou as maiores emissões anuais de queimadas já observadas.
Além disso, o ano foi marcado por ondas de calor recordes, tempestades severas e outros eventos extremos em várias partes do mundo. Esses episódios ajudam a ilustrar como o aumento da temperatura média global se traduz em impactos concretos sobre a vida das pessoas, a saúde pública e os ecossistemas.
A leitura dos dados é consistente entre diferentes instituições científicas. Organizações como a Nasa, a NOAA e a OMM confirmaram que 2025 está entre os três anos mais quentes já registrados.
Para Carlo Buontempo, diretor do serviço climático do Copernicus, o mundo caminha para ultrapassar de forma definitiva o limite estabelecido no Acordo de Paris. “A escolha que temos agora é como gerenciar da melhor forma esse excesso inevitável e suas consequências para a sociedade e os sistemas naturais”, afirmou em nota.
Os cientistas alertam que, mantido o ritmo atual de aquecimento, o limite de 1,5 °C de longo prazo pode ser atingido ainda nesta década. Para eles, os dados de 2025 deixam claro que o aquecimento global não é uma projeção distante, mas um processo em curso, impulsionado principalmente pela ação humana e já visível em números, mapas e impactos cada vez mais difíceis de ignorar.
Fonte: abril






