O clima mudou, o planeta segue esquentando, e as consequências das mudanças climáticas antropogênicas (causadas pela ação humana) já viraram parte do nosso cotidiano. Ondas de calor tem se tornado cada vez mais duradouras e intensas. Temporais, cada vez mais frequentes. Enquanto isso, por todo o planeta, eventos climáticos extremos têm prejudicado as safras de alimentos, aumentando o preço da comida nas prateleiras dos supermercados.
Ainda assim, para a maioria das pessoas, as mudanças climáticas parecem ser muito mais um problema dos outros do que delas próprias. Comparando-se aos demais, 65% acreditam correr menos risco de serem afetados pelas alterações no clima, de acordo com uma nova revisão sistemática publicada no periódico Nature Sustainability, nesse último dia 8.
Pesquisadores analisaram dados de 83 estudos feitos em 17 países da América do Norte, Ásia, Europa e Oceania. No total, mais de 70.000 participantes haviam avaliado os impactos das mudanças climáticas na própria vida e na vida dos outros – que vão desde os vizinhos até a humanidade em geral. O clima geral era de otimismo: em todos os estudos, com exceção de dois, os participantes disseram correr menos riscos que os demais.
Siga
Essa discrepância – entre o risco para si e para os demais – só aumentava quanto mais generalizado era esse “outro”. Comparar a própria situação com a do país ou da humanidade gerava contrastes muito maiores do que, por exemplo, em relação a cidade ou aos vizinhos.
O oposto se via quando os participantes conviviam cotidianamente com as consequências das mudanças climáticas. 81 estudos mostraram contrastes significativos na percepção dos participantes, mas dois fugiram da regra: levantamentos feitos com fazendeiros na China e na Coréia do Sul, isto é, trabalhadores que dependem do clima para a saúde de suas safras.
Muito diferente do caso dos participantes europeus. Entre todas as regiões analisadas, a Europa é a que menos sofre com os impactos das mudanças no clima, e, consequentemente, aquela com as maiores distâncias entre as percepções de risco.
Achar que a grama do vizinho é sempre menos verde não é um fenômeno novo, tampouco algo exclusivo à percepção sobre o clima. É comum que as pessoas subestimem os riscos concretos de alguma coisa quando o assunto é com elas – e tomem decisões a partir disso. Esse é o chamado viés de otimismo, um fenômeno que já foi observado, por exemplo, entre fumantes, que tendem a desprezar os efeitos do cigarro no próprio corpo.
A revisão sistemática avaliou apenas a percepção dos participantes, e não chega a dizer o quão realistas suas expectativas eram quando comparadas aos riscos reais – por mais que as distintas dimensões do impacto climático em cada região de análise tenham sido levadas em conta, como na comparação entre países asiáticos e europeus. Ainda assim, a maneira como as pessoas se entendem em meio às mudanças climáticas é um fator que pode influenciar a forma como reagem e se adaptam às novas condições do planeta, ou mesmo as medidas tomadas para mitigar essas mudanças.
Fonte: abril






