Durante décadas, o American Dream foi vendido como o grande objetivo a ser alcançado: estabilidade financeira, casa própria, ascensão social e sucesso individual conquistados com esforço e determinação. No entanto, nos últimos anos, esse ideal vem apresentando sinais claros de desgaste. Para muitos, a promessa de prosperidade já não se sustenta frente ao alto custo de vida, à precarização das relações de trabalho e à sensação de que trabalhar mais não significa, necessariamente, viver melhor.
É nesse contexto que o Brasil, apesar de seus inúmeros desafios estruturais, surge na imaginação dos gringos como sinônimo de um lugar em que é possível viver uma vida mais leve. Longe de representar riqueza ou segurança absoluta, o chamado “sonho brasileiro” passa a simbolizar algo difícil de medir, mas fácil de desejar — tempo, afeto, cultura e qualidade de vida.
O que é o American Dream e por que ele está em crise
O American Dream nasce da crença de que todo cidadão dos Estados Unidos tem igualdade de oportunidades para alcançar sucesso e prosperidade por meio de trabalho árduo, determinação e iniciativa. Em teoria, independentemente da origem social, qualquer pessoa poderia “chegar lá” se se esforçasse o suficiente. Esse ideal moldou gerações, atraiu imigrantes do mundo todo e consolidou os EUA como referência de progresso econômico e mobilidade social.
Na prática, entretanto, o cenário mudou. O custo de vida nos grandes centros urbanos disparou, tornando a casa própria um objetivo distante até para a classe média. A crise imobiliária, os aluguéis exorbitantes e a estagnação salarial criaram um descompasso evidente entre esforço e recompensa. Soma-se a isso jornadas de trabalho exaustivas, uma cultura de produtividade extrema e sistemas de saúde e educação caros e inacessíveis para muitos.
Como resultado, temos um esgotamento coletivo. Jovens adultos relatam burnout precoce, dificuldade de planejamento a longo prazo e frustração com a promessa não cumprida de prosperidade. O American Dream não desapareceu, mas deixou de ser universal e passou a soar inalcançável para uma parcela significativa da população.
O sonho brasileiro entra em cena

Com o desgaste desse ideal, há um deslocamento simbólico de desejos e expectativas, especialmente entre jovens, nômades digitais e trabalhadores criativos. Em vez de status profissional e acumulação material, ganham espaço valores como bem-estar, experiências culturais, flexibilidade e qualidade de vida. É nesse ponto que o Brasil começa a se destacar.
Para muitos estrangeiros, o sonho brasileiro representa exatamente aquilo que falta em seus locais de origem: relações mais calorosas, sociabilidade espontânea, comida diversa e acessível, clima favorável e um custo de vida mais baixo — sobretudo para quem recebe em moedas mais fortes que o real. Até mesmo o Sistema Único de Saúde (SUS) costuma ser visto com curiosidade e admiração por gringos acostumados a pagar caro por atendimentos básicos.
Esse movimento é amplificado pelas redes sociais, onde influenciadores estrangeiros ajudam a construir a imagem de um Brasil vibrante, acolhedor e cheio de contrastes positivos. A alemã Lea Maria Jahn, por exemplo, conquistou milhões de seguidores ao comparar situações cotidianas da Alemanha com as do Brasil, exaltando a cultura brasileira como mais calorosa e menos engessada.
O humorista Paul Cabannes conheceu sua esposa brasileira na França, mas se mudaram para o Brasil em 2015 após o nascimento de suas filhas. Seus vídeos comparando costumes franceses e brasileiros viralizaram ao destacar, com humor, o jeito expansivo e afetuoso do brasileiro.
Já o britânico Nick Whincup, que conheceu a esposa brasileira em uma viagem ao Rio de Janeiro, produz conteúdos mostrando o que o país tem de melhor, da comida às paisagens naturais.
O americano Spencer Sabe, professor de inglês que mora em São Paulo desde 2018, faz sucesso ao falar sobre costumes brasileiros e o aprendizado da língua portuguesa, sempre com um olhar curioso e afetuoso.
Quando os famosos reforçam o sonho brasileiro

Esse imaginário também é alimentado por celebridades internacionais que frequentemente declaram sua paixão pelo Brasil. Músicos, em especial, ajudam a consolidar a ideia de que o país oferece algo único: um público intenso, participativo e emocionalmente envolvido.
Só para ilustrar, a banda Coldplay realizou 11 shows no Brasil em 2023 e acabou virando meme após os integrantes visitarem locais inusitados, interagirem com fãs nas ruas e demonstrarem encantamento genuíno pelo país. Bruno Mars protagonizou outro momento marcante ao fazer uma turnê histórica em 2024, com direito a música dedicada especialmente aos fãs brasileiros.
Mais recentemente, Rosalía esteve no Brasil em novembro de 2025 para uma audição de seu álbum Lux, mas acabou retornando para passar o ano novo no Rio de Janeiro. A artista foi vista em bares, rodas de samba e até em um passeio de helicóptero no Cristo Redentor, reforçando a imagem de um Brasil festivo, culturalmente rico e irresistível.

Shawn Mendes seguiu caminho semelhante: esteve no país em novembro, hospedado na casa de Ivete Sangalo, e voltou para passar o réveillon ao lado de seu affair, Bruna Marquezine.
Esses episódios, amplamente divulgados, ajudam a projetar o Brasil como um lugar de prazer, liberdade e conexão humana, valores cada vez mais escassos em sociedades hiperprodutivas.
Marcas brasileiras como novo sinônimo de luxo cultural
Do mesmo modo, o chamado “sonho brasileiro” também se manifesta no consumo. Marcas nacionais vêm se tornando símbolos de um luxo mais sensorial, ligado à experiência e à identidade cultural. As Havaianas, por exemplo, foram uma verdadeira febre no verão europeu de 2025, usadas como item fashion e não apenas como chinelo funcional.
Além disso, marcas como Melissa e FARM conquistam espaço internacional ao traduzir brasilidade em design, cores e narrativas tropicais.
Já no setor de beleza, a Sol de Janeiro, criada por uma brasileira e dois americanos, tornou-se a marca mais vendida da Sephora, mostrando como o imaginário de sol, corpo e alegria associados ao Brasil tem alto valor simbólico no mercado global.
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Conclusão
Apesar de todo esse encantamento, é fundamental tomar cuidado com a romantização do sonho brasileiro. Ele só funciona plenamente para alguns recortes sociais — especialmente para quem tem renda estável, mobilidade geográfica ou acesso à moeda mais forte que o Real. Para uma grande parcela da população, o Brasil ainda é sinônimo de desigualdade, instabilidade, violência e esforço constante para garantir acesso a uma vida digna.
Então, o que está em jogo não é exatamente a substituição de um sonho por outro, mas a crise do sonho único. O American Dream deixou de ser universal, e o mundo passou a buscar múltiplos modelos de viver bem. O Brasil surge nesse cenário não como promessa de riqueza, mas como símbolo de uma vida onde viver também é um objetivo — e não apenas vencer.
Fonte: fashionbubbles









