No fim de outubro de 2025, quatro camundongos deixaram a Terra a bordo da missão tripulada Shenzhou-21. O objetivo era testar como mamíferos respondem ao ambiente espacial e se uma viagem curta em microgravidade pode afetar a capacidade reprodutiva.
Pouco mais de um mês após o retorno, o experimento produziu um resultado inédito para a ciência espacial. Uma das fêmeas deu à luz nove filhotes na Terra. Seis sobreviveram, um índice considerado normal para a espécie.
O nascimento foi anunciado em 29 de dezembro pelo Centro de Tecnologia e Engenharia para Utilização do Espaço, ligado à Academia Chinesa de Ciências.
Os camundongos permaneceram cerca de duas semanas a bordo da estação espacial chinesa, que orbita a aproximadamente 400 quilômetros da Terra. Eles viveram em um habitat especialmente projetado para pequenos mamíferos, adaptado às condições de microgravidade.
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As luzes eram acesas às 7h e apagadas às 19h, para preservar um ritmo circadiano semelhante ao da Terra. A temperatura interna foi mantida em torno de 26 °C, e o sistema incluía um fluxo de ar direcional para impedir que fezes, pelos e restos de comida ficassem flutuando pelo ambiente – um problema comum na ausência de gravidade.
O uso de camundongos não é por acaso. Em nota, Huang Kun, especialista do centro de pesquisa da Academia, explicou que eles têm alta similaridade genética com humanos, ciclo reprodutivo curto e são facilmente modificáveis do ponto de vista genético.
Isso os torna modelos adequados para estudar processos fisiológicos e patológicos e observar, em pouco tempo, efeitos que em humanos levariam anos para aparecer. Experimentos anteriores já haviam mostrado, por exemplo, que espermatozoides de camundongos expostos ao espaço podiam ser usados para fertilizar fêmeas na Terra, reforçando o interesse científico nesse modelo animal.
Antes do lançamento, os quatro animais passaram por uma seleção rigorosa. Os testes incluíram avaliação de força e resistência em um dispositivo semelhante a uma bicicleta ergométrica em miniatura.
Houve também exames de resistência ao enjoo, com rotações prolongadas em várias direções, e testes comportamentais. Em um deles, os camundongos eram suspensos de cabeça para baixo, e os pesquisadores observavam a reação. Avançavam aqueles que resistiam ativamente, considerados mais resilientes. Labirintos foram usados para avaliar cognição espacial e capacidade de adaptação.
Após essa etapa, os animais viveram por um período em gaiolas compactas que simulavam o confinamento da cabine espacial. Só então os quatro com melhor desempenho foram escolhidos para a missão.
A viagem não foi tranquila. Mudanças no cronograma de retorno da cápsula que traria os camundongos de volta à Terra causaram uma escassez de alimentos no fim do período em órbita. A água continuou sendo fornecida por uma interface específica do habitat, com apoio direto dos astronautas da estação.
Já a alimentação exigiu improviso. Como a ração especializada não pôde ser reposta a tempo, os cientistas avaliaram diferentes itens do cardápio humano, incluindo biscoitos prensados, milho, avelãs e leite de soja.
Após testes em solo, o leite de soja foi escolhido como substituto emergencial. Durante todo o período, um sistema de monitoramento com inteligência artificial acompanhou padrões de movimento, alimentação e sono, ajudando a equipe em solo a tomar decisões rápidas.
Os bichinhos retornaram à Terra em 14 de novembro. Depois do pouso, uma das fêmeas engravidou. O parto ocorreu em 10 de dezembro.
“Esta missão demonstrou que viagens espaciais de curta duração não prejudicam a capacidade reprodutiva do rato”, afirmou Wang Hongmei, pesquisadora do Instituto de Zoologia da Academia Chinesa de Ciências, em comunicado.
Segundo ela, o experimento também gera material importante para investigar como o ambiente espacial influencia os estágios iniciais do desenvolvimento em mamíferos. A mãe passou a amamentar normalmente, e os filhotes apresentaram comportamento ativo e desenvolvimento compatível com o esperado.
Para os pesquisadores, o dado ganha peso por causa do ciclo de vida curto dos camundongos. Duas semanas no espaço correspondem, em termos biológicos, a mais de um ano de vida humana. Eles ressaltam, porém, as limitações do estudo.
A concepção e o nascimento ocorreram na Terra, não em microgravidade. Além disso, a missão permaneceu em órbita baixa, protegida em grande parte da radiação mais intensa associada aos cinturões de Van Allen.
Isso significa que o experimento não responde a todas as dúvidas sobre fertilidade e desenvolvimento em missões longas, como as planejadas para a Lua ou Marte.
Mesmo assim, o resultado se insere em um contexto histórico mais amplo. Animais são enviados ao espaço desde o início da era espacial, muito antes de missões humanas prolongadas. Já se sabe, desde a década de 1960, que voos espaciais não tornam humanos inférteis, como demonstrado pelo nascimento do filho da cosmonauta Valentina Tereshkova menos de um ano após sua missão. O impacto de exposições mais longas, porém, segue sendo uma questão em aberto.
Agora, a equipe chinesa acompanha o crescimento dos filhotes, analisando curvas de desenvolvimento e possíveis alterações fisiológicas. Estudos futuros podem avaliar se esses animais conseguem se reproduzir normalmente, permitindo investigar efeitos que se estendam por gerações.
Fonte: abril






