Esportes

Judoca surdo brasileiro conquista ouro inédito em Tóquio: a emocionante jornada do Ceará a Mato Grosso

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2025 word2
O relógio marcava Golden Score – etapa em que quem acerta o primeiro golpe vence, a chamada morte súbita – quando o corpo de Pedro Dantas começou a falhar. O tatame em Tóquio parecia menor, o quimono de judô pesava mais do que o normal e a pegada não vinha limpa. Na arena lotada da Surdolimpíada, o brasileiro e o outro rapaz se enganchavam num empate que já tinha passado do tempo regulamentar. O placar piscava, a arbitragem acompanhava cada movimento e o mundo se movia em silêncio.
Pedro não ouvia grito, nem apito, nem torcida, nem nada. Estava sem seu aparelho de audição. Estava surdo. Mas sentia tudo. Principalmente, medo.
Medo de perder a luta que valia a inédita medalha de ouro para o Brasil nas Surdolimpíadas. Medalha que ele tinha chegado acreditando que podia ganhar.
Sentia dor. Dor no ombro esquerdo que o impedia de levantar aquele braço e o lembrava da torção que quase o tirou da competição três dias antes. Sentia ansiedade, que ele mesmo descreve como a parte mais difícil de tudo: o principal desafio não era o nível técnico, não era o adversário, era estar ali.
A maior luta não foi contra os atletas que precisou superar, mas contra a própria cabeça. Para isso, contou com a ajuda de seu Toquinho, nome que levava bordado na faixa preta.
No tatame central do ginásio japonês, o judoca de quimono azul com “P. Dantas – BRA” nas costas ajustou a pegada trocada, girou o quadril e entrou de vez na guerra de não deixar o medo travar o corpo e controlar a mente.
2025 word2(Pedro Dantas na infância, quando começou a treinar. Crédito: Acervo Pessoal)
Pedro Felipe Luís dos Santos Dantas nasceu em 14 de fevereiro de 2003, em Crato, no interior do Ceará. Ele gosta de dizer que veio de uma cidade simples, de sertão e de seca. “Essas dificuldades que forjam a gente”, resume. Antes de ser campeão do mundo, ele foi o menino tímido, franzino e baixinho que apanhava na escola e chegava em casa marcado pelas surras. Mas sem falar nada.
“Só que eu era tímido. Eu não falava pra minha mãe. Ela que via”, lembra.
Timidez não combina com a mãe dele. Nágela Maria é o oposto: firme, confrontativa, faixa marrom de judô quando o filho nasceu. Foi ela que, depois de ver o menino voltar machucado algumas vezes, decidiu resolver do jeito mais direto que conhecia: matriculou o filho de três anos de idade nas aulas de judô do irmão dela, no Sesc. Pedro saía da natação e entrava no tatame.
No dojô, o código era de reverência, pegada, queda, repetição. “Comecei a usar na escola”, ele conta, rindo. “Bem que não pode… mas quando precisa, né?”. O menino pequeno, que apanhava sem reagir, virou o menino que ninguém mais queria provocar.
Aos cinco anos, veio o sarampo. Primeiro por dentro, febre alta, dias sem diagnóstico. Somente depois as manchas vermelhas na pele. O que ficou, ninguém enxergava: a perda auditiva. A surdez não veio como choque imediato, veio como mudança gradual. A princípio, ninguém percebeu, pois Pedro ainda escutava um pouco. Até que vieram as muitas faltas na escola, mesmo com ele presente todos os dias. Confrontada por dona Nágela, a professora explicou que o menino não respondia nunca à lista de chamada.
Foi aí que entenderam que alguma coisa havia mudado. A família percebeu que ele não respondia a alguns chamados, que precisava olhar para ver quem falava. A vida seguiu. Com mais silêncio e com mais judô.
2025 word2(Pedro rodeado de suas maiores incentivadoras, a equerda a mãe Nágela e a direita a avó Maria Zenaide. Crédito: Acervo Pessoal)
A mãe foi quem jogou Pedro no tatame, mas a avó Maria Zenaide é lembrada como a grande incentivadora. Ele fala da avó com uma mistura de devoção e saudade. Foi ela quem pagou muita competição quando o dinheiro não fechava, principalmente pela falta de suporte público em Crato. Era ela quem se preocupava, quem fazia comida, quem segurava o mundo de um jeito que ele hoje, já adulto, chama de “cuidado” enquanto os olhos ficam marejados.
“Minha avó foi minha maior patrocinadora. Sem ela eu não tinha ido pra um monte de campeonato”, diz. Maria Zenaide já se foi. Quando ele pegou a medalha de ouro da Surdolimpíada, desfilou o prêmio ao lado da faixa com o nome de Toquinho, da foto da avó e da mãe, suas maiores companhias.
2025 word2(Maria Zenaide trajando o judogi de Pedro Dantas. Crédito: Acervo Pessoal)
Na adolescência, o judô ocupava grande parte da rotina, mas para ele isso era uma espécie de atividade extracurricular, ou um hobby mais sério. O projeto de vida era outro. Pedro olhava para o pai e para os tios que eram policiais, uns militares, outros civis, e se enxergava fardado. Queria seguir o mesmo caminho.
“Eu tinha dois tios policiais. Outro policial civil. Aí todo mundo andava armado. Eu queria andar armado também. Aí eu via viatura da polícia. Eu sempre me imaginava. Nossa, muito massa. Pessoal fardado, sabe? Eu sempre tive uma admiração muito grande pela polícia.”
E, quando chegou ao ensino médio, começou a focar o estudo para concurso. Foi quando leu o edital para Polícia Militar do Ceará que veio o choque: a audiometria exigida era de 41 decibéis, mas o exame dele apontava 85 decibéis. O mesmo no Exército. Toda carreira que ele havia planejado para a vida havia sido destruída pela deficiência auditiva.
Inconformado, encontrou a saída na Polícia Civil. Lá, além de ser permitido que ele trabalhasse com a audiometria em 85 decibéis, tinha até cota para ingressar e ser delegado. Porém, havia a necessidade de nível superior completo no curso de Direito. Pronto, novo plano definido. Mas as coisas não estavam pacificadas no coração dele, ainda mais quando a decepção com a carreira se somou a uma desilusão amorosa.
Foi aí que veio a decisão de deixar o Ceará com o coração partido, no fim do ciclo do ensino médio e a sensação de desencaixe familiar devido a desavenças com um primo que ele julga ter sido protegido enquanto fazia as escolhas erradas.
“Me estressei com minha família também, porque… Quando é coisa que você fica perto da família, você não cresce. Hoje eu entendo. Mas eu tive aquele desconforto, eu não entendia, eu chorava, desabafava. Aí eu cheguei e falei, vou embora. Vou embora e vou morar bem longe daqui. Bem longe daqui”, contou.
Ele cogitou outros destinos óbvios no mapa: São Paulo e Salvador, cidades onde teria suporte familiar e tinha proximidade com o mar. Desistiu de Salvador por conta dos problemas de segurança pública e de São Paulo porque não conseguiu nota suficiente para passar no curso de Direito. O destino escolhido, por conta da faculdade e das possibilidades reais que apareceram, foi Cuiabá, onde tinha nota mais que suficiente para cursar Direito.
“Tinha uma prima que morava aqui e dois primos em Rondonópolis. E eles já tinham ido me visitar. Cuiabá, em Mato Grosso, fim do mundo. Longe da praia. Eu não sabia que aqui era quente. O pessoal fala, não, primo, lá é de boa”, disse.
Sem querer, ele seguia um roteiro que se tornaria essencial para o judô, até então visto como um hobby, se transformar em profissão.
2025 word2(Registros da infância e adolescência de Pedro com o judô. Crédito: Acervo Pessoal)
Quando chegou em Cuiabá, em 2021, Pedro topou com uma combinação improvável de fatores: uma academia que o acolheu sem pestanejar, uma estrutura estatal com um projeto esportivo em expansão, gente disposta a apostar nele em todos os aspectos e uma comunidade de surdos organizada e apoiada pelo poder público.
A primeira parte da equação foi encontrar o dojô: o Instituto Reação, braço local de um projeto que formou medalhistas olímpicos no Rio e se espalhou pelo país. Foi ali que Pedro encontrou Vinicius Vilela, o “Big”, e Guilherme Soares, o “Guigui”, seus principais treinadores, que o ajudariam a desenvolver novas habilidades como atleta.
E aí entraram as outras partes dessa equação: a comunidade de surdos, organizada na Federação Desportiva dos Surdos de Mato Grosso (FDSMT), e o apoio da Secel. Foi por meio da FDSMT que ele entrou de vez no mundo da Língua Brasileira de Sinais (Libras), com a qual teve pouco contato quando vivia no Crato, e das competições específicas para surdoatletas.
O choque com a diferença da realidade do Ceará foi tamanho que, quando surgiu a primeira oportunidade de ele participar de um campeonato nacional voltado a atletas surdos, com tudo pago pela federação e com apoio da Secel, ele achou que era esquema de tráfico humano, igual assistia na novela Salve Jorge, e deixou a oportunidade passar.
“Aí, eu achei estranho. Peraí. Vão pagar tudo? Eu nunca viajei com eles pagando tudo. Eu falei, ‘Não, não, calma aí.’ Eu não fui. E eles falam em libras, eu não entendia libras direito. ‘Não, a gente vai pagar a passagem, a alimentação’. E eu que cresci assistindo Salve Jorge, lá no interior do Ceará, tava desconfiado. Não sei, pelo amor de Deus, ser sequestrado. Eu tinha medo, pô. Como assim, de graça? Não, não, não. Calma, calma. A gente vai ver. Eu cheguei aqui agora, calma”.

Foi também em Cuiabá que outra porta se abriu, fora do tatame. Pelo SUS, no Centro de Reabilitação Integral Dom Aquino Corrêa (Cridac), ele finalmente conseguiu, com rapidez, o aparelho auditivo que no Ceará era apenas uma promessa distante. “Lá era muito difícil, muito demorado. Aqui eu fui atendido, fiz os exames, peguei o aparelho. Foi tudo muito mais rápido”, conta.
Agora, como representante da FDSMT, Pedro fez questão de vincular o sucesso à estrutura que o acolheu. Na conversa, ele repete que a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel) custeou toda a participação dele na Surdolimpíada: viagem, hospedagem, estrutura básica para competir. Se tivesse continuado em Crato, provavelmente não teria ido à Surdolimpíada.
“Infelizmente lá [Crato-CE], eu não tive muito investimento, né? Foi muito difícil. Mas aí, tudo tem seu lugar. Porque aqui no Mato Grosso, era pra eu crescer aqui. Então, tudo vai acontecer. Vai acontecer uma coisa ruim, ou seja, não tive investimento, teve uma coisa que me forçou a sair de lá, pra acontecer uma coisa melhor aqui.”
“Aqui tem muito [investimento público]. Minha viagem, o governo todo pagou. A Secel fez um projeto. Foi minha passagem. Foi minhas taxas que eu tinha que pagar. Alimentação também me ajudaram. Tudo. Só de hotel eu acho que foi mais de 8 mil reais. Não teria condição, né? Meu judogi novo, a minha faixa, foi tudo eles que pagaram. Tudo, sabe? Todo investimento. Então, fiquei, nossa, muito feliz. Até a mala, sabe? Casaco, tudo. Tudo, tudo, tudo, tudo”, disse.
Desde a reformulação e ampliação do Programa Olimpus, da Secel, em 2020, o governo estadual já investiu mais de R$ 13 milhões na concessão de bolsas para atletas e técnicos. Nesse período, os editais do Bolsa Atleta quadruplicaram de tamanho e os do Bolsa Técnico triplicaram. Pedro agora faz parte do pograma como treinador.
O edital mais recente do Bolsa Atleta – Projeto Olimpus MT, publicado em 2025, reserva R$ 5,04 milhões para 520 bolsas, divididas em cinco categorias: Infantil (100 bolsas de R$ 200), Base (100 de R$ 400), Estudantil (120 de R$ 800), Nacional (170 de R$ 1.200) e Internacional (30 de R$ 2.000), todas pagas em doze parcelas mensais. Em cada uma dessas faixas, 20% das vagas são obrigatoriamente destinadas a paraatletas e surdoatletas, previsão que hoje garante o lugar de Pedro dentro da política pública.
O programa prioriza os esportes olímpicos, paralímpicos e surdolímpicos, mas também abre espaço para modalidades que ainda não fazem parte dos programas oficiais ou não são cadastradas no COB ou no CPB. Na prática, isso significa usar dinheiro público para sustentar rotinas de treino, viagem e competição de gente como ele, que antes dependia quase só de família e vaquinha. Agora, o judoca surdo que saiu do sertão recebe para treinar e, ao mesmo tempo, ajudar a puxar outros meninos e meninas para o tatame em Mato Grosso.
2025 word2(Pedro carrega na faixa o nome do seu mentor: Toquinho. Crédito: Acervo Pessoal)
A relação de Pedro com a Umbanda começou na infância, quando ele se consultava com um tio que, para ele, tinha um dom de incorporar e ajudar as pessoas. Ele lembra com carinho de Zé Pereira, o guia que fazia as funções de orientador. Mas essa relação com a espiritualidade tomou forma mais clara em Cuiabá, quando precisou procurar por um novo terreiro. Sem saber como procurar, fez a escolha óbvia de pesquisar pela internet, mas isso não trazia a intimidade que ele gostaria para se aproximar. Um contato por WhatsApp parecia pouco para Pedro.
Foi quando ele visitou uma loja que vendia materiais religiosos e conversou com uma moça perguntando sobre um terreiro que tudo mudou. Não porque ela, ali, em um bate-papo rápido, o convenceu a ir até o centro de Umbanda que frequentava, mas porque, quando ele voltou ao contato de WhatsApp que conseguiu na internet, a reconheceu: era a mesma mulher da loja. Só podia ser um sinal. “Quando eu vi a foto, eu pensei: é lá que eu tenho que ir”, lembra.
2025 word2(Acompanhado de Mãe Deise, a Mãe de Santo dirigente, e Mãe Graci, a Mãe Pequena. Crédito: Acervo Pessoal)
O lugar que ele chama simplesmente de “núcleo” é o Núcleo de Estudos e Práticas Umbandistas Caboclo Ventania. Lá, Pedro diz que foi alinhando a espiritualidade, estudando, aprendendo a rezar, ajustando intolerâncias antigas, especialmente a busca pelo equilíbrio no amor e no orgulho.
A relação com os guias e o terreiro faz parte da rotina diária. Ele conta que toma banho de preparo, acende vela quando precisa, faz mentalizações, cumpre obrigações. Estuda diariamente lendo livros, tirando dúvidas com pessoas mais experientes e com os próprios guias.
É ali também que aparece a figura de seu Toquinho, um dos guias com quem ele diz ter laço mais forte, a ponto de a entidade ter o nome bordado na faixa que levou ao Japão. Seu Toquinho é quem puxa a orelha, orienta, cuida de Pedro como um pai muito sábio. Sua família espiritual que o acompanha ajuda.
“Seu Toquinho, que é o guia-chefe da linhagem de Cipriano do Núcleo, né. Da linha dos Malandros. Eu sô muito próximo com ele como amigo e tudo, ele sempre me orientou, desde que eu cheguei, sempre foi, ó, vós isso e isso. Era como o Zé Pereira lá do Crato. Se eu tô fazendo coisa errada, ele ficava bravo comigo. E eu sempre gostei muito dele. E aí, por esse amor que eu tenho por ele, eu não queria que ele ficasse bravo comigo. Então, isso me ajudava a manter no caminho certo. A não fazer coisas erradas. A não faltar com compromisso e tudo. Então, isso me ajudou muito. E aí eu criei esse vínculo com ele. Tenho essa amizade com ele.”
A dimensão da espiritualidade aparece em detalhes: no ponto (nome das canções religiosas da Umbanda) que ele canta mentalmente antes da luta, quando lembra que ninguém ali escuta mesmo; quando ele cuida do altar para emanar boas energias, ou quando faz sua tronqueira para absorver as ruins. E, claro, na maneira como pede ajuda para seu Toquinho e outros guias em momentos de aperto.
Mas também tem uma dimensão muito prática. Já em Mato Grosso, Pedro Dantas precisou da orientação de seus guias para encontrar seu rumo, não só no judô, mas junto com a comunidade de surdos. Insatisfeito com o curso de Direito, seguiu o conselho de seu Toquinho e trocou o curso para Letras, com habilitação em Libras. Depois, ficou afastado do judô, se dedicando somente ao Núcleo por algum tempo, até que recebeu outra orientação, dessa vez de Maria do Cais.
“Aí eu cheguei pra Maria do Cais, eu falei, ‘Maria, eu tenho que voltar, eu não tô conseguindo mais’. Ela falou, ‘vós aprendeu. Agora é hora de vós voltar’. Aí eu falei, porque eu achei estranho, né? Aí eu fiquei sem entender. Aí eu falei, ‘mas é mesmo?’ Porque eu achava que não era. Eu competia muito e o espiritual era mais baixo. Depois eu diminuía a competição, foquei mais no espiritual. Quando ela falou que era hora de voltar, era isso que minha mãe de santo falava lá atrás, ter o amor pelos dois, que era o quê? O equilíbrio.”
2025 word2(Chegada solitária de Pedro em Hamasho, concentração da seleção. Crédito: Acervo Pessoal)
As Surdolimpíadas de Verão de 2025, realizadas em Tóquio entre 15 e 26 de novembro, foram a 25ª edição dos Jogos (XXV Summer Deaflympics) e marcaram o centenário da primeira disputa, em Paris, em 1924. Cerca de 3 mil atletas surdos, de aproximadamente 81 países, competiram em 21 modalidades. O Brasil levou uma delegação de 118 pessoas, sendo 83 atletas. Pedro era um deles.
Dias antes de estrear nas Surdolimpíadas, Pedro enfrentou uma série de problemas. Começou com o voo internacional de São Paulo para Tóquio atrasado. Ele teve que passar um dia no Catar. Se isso pode parecer interessante a um turista, para ele significou perder a chegada junto com o restante da seleção brasileira de judô e ter menos um dia de adaptação ao fuso horário, com mais de 12 horas de diferença.
Além de obrigar ele, um atleta com deficiência auditiva, a tentar se comunicar em um país que sequer compartilha o mesmo alfabeto com a língua portuguesa. Sair de Tóquio para Hamasho, onde estava o restante da seleção de judô, de trem-bala, foi uma aventura silenciosa, na qual se comunicava somente com gestos e pelo celular.
Depois, veio a lesão no ombro esquerdo. Durante o treino de aclimatação, sofreu uma torção faltando apenas três dias para o campeonato.

E, uma noite antes da luta, estava brigando com uma máquina de lavar. O judogi branco, novo, ainda não tinha sido “amaciado”. Estava grande demais para competir, o que seria um problema. Para resolver, decidiu colocar o uniforme para lavar com água quente, com o objetivo de encolher o tecido.
Decidiu resolver aquilo quase de madrugada. Tarde da noite, colocou o judogi para lavar, acreditando que antes da meia-noite estaria pronto. A lavada deu certo, o quimono e a calça haviam encolhido, mas estavam molhados demais e a secadora não dava conta. Pedro passou a noite tirando cochilos de uma hora e meia, duas horas, e voltando para a lavanderia para ver se o uniforme estava seco. Quando finalmente conseguiu um quimono seco, leve e do tamanho certo, já passava das sete horas da manhã. A primeira luta era às nove e meia.
“Aí pá, cochilei. Aí dormi duas horinhas, sabe? Esse sono quebrado, esse cochilo. Cara, eu fiquei muito preocupado. Porque até então, eu só estava dormindo direto e muito bem. Dormindo muito bem, mas direto, né? Não interrompido. Aí eu, caramba, velho, eu acordei. Não, mas hoje é dia. Hoje é meu dia, vamos que vamos, uai”, brinca.
2025 word2(Pedro, seleção e equipe japonesa que ajudou nos treinos de aclimatação. Crédito: Acervo Pessoal)
No aquecimento, na área reservada do ginásio japonês, o silêncio era diferente de qualquer outra competição. Ali, quase todo mundo era surdo. Não havia grito de torcida que chegasse, não havia anúncio de alto-falante que interferisse. Pedro descreve essa sensação com um misto de estranhamento e fascínio. No Japão, a vibração não vinha do som, vinha do chão, do tatame em cima do palco de madeira que vibrava. Vinha da movimentação. Ele conseguia sentir tudo, mesmo sem ouvir.
Foi ali que começou a testar a estratégia mental que viria a usar nas lutas decisivas: cantar na própria cabeça o ponto dos guias, pedir proteção a Toquinho e a Jesus, lembrar das orações do Núcleo. “Eu ficava cantando esse ponto dos meus guias na área de aquecimento”, conta. “Ninguém escutava mesmo.”
A primeira luta do judô masculino até 60 kg nas Surdolimpíadas, a estreia, ele define como traumática. Não porque ele estava tecnicamente inferior, não pela noite mal dormida, não pelo ombro lesionado, mas sim pela luta mental. O primeiro contato com aquela arena, com aquele nível de cobrança. Quando conseguiu respirar, conseguiu também derrubar Mungun-Onis Erdenebat, atleta da Mongólia. O desafio era uma mistura de derrubar adversário e controlar a ansiedade.
2025 word2(A montanha no caminho: Pedro enfrenta Altynbek Kakitayev, do Cazaquistão. Crédito: Acervo Pessoal)
Nas quartas de final, enfrentou quem ele considerava o grande adversário, o então campeão surdolímpico Altynbek Kakitayev, do Cazaquistão. Pedro tomou dois shidô, punições que, quando acumulam em três, eliminam o atleta da luta. Ele estava a um erro de perder o combate.
“Foi pro Gold Score, que é quando o tempo é ilimitado, vai até alguém jogar, conseguir uma pontuação, ou o outro toma três punições pra perder. E aí eu… Caramba, foi uma luta dura. Dura. Eu não conseguia fazer golpe, nem nada. E eu com dois shido, se eu fizesse mais uma coisa errada, eu tomava outro shido e perdia. E eu já estava pedindo ajuda do seu Toquinho. Aí eu fiz uma técnica estranha que só. Um kata otoshi. E ele também fez uma técnica. Caiu nós dois de lado. Nisso deu um gelo grande em mim, porque a árbitra já chamou o VAR. E eu, caramba, velho. Pra mim, não tinha sido o ponto meu, mas a árbitra deu yuko e já apontou pra mim. Nossa, eu aceito. Foi a espiritualidade que me deu. Só cumprimentei e não questionei nada. Isso aí. Ah, tá maluco? Tô nesse nível aqui, vou questionar nada. Depois eu vi o vídeo e realmente parecia yuko meu”.
2025 word2(O placar da vitória contra o então campeão. Crédito: Acervo Pessoal)
Depois do sufoco, Pedro passou na semifinal por Baisalbek Orozali Uuru, do Quirguistão, para então enfrentar Joshgun Aliyev, do Azerbaijão, na grande final. A essa altura, o ombro lesionado começou a ser uma preocupação porque doía a ponto de ele não conseguir levantar o braço esquerdo.
Mas isso, segundo o atleta, não se compara com o que foi controlar a ansiedade antes de subir no tatame na final. Pedro estudou o adversário e se sentia melhor competidor. Conseguia se ver campeão, mas em seguida começou a acreditar que isso poderia o levar a uma armadilha. O orgulho poderia levá-lo à derrota, era preciso equilibrar as emoções, um dos principais focos do estudo dele no terreiro.
“Chamam o bloco da final. Aquele tambor batendo. Eu sem aparelho não escuto nada. Mas parecia que eu estava de aparelho. Lá era madeira e tudo vibra. Chegava a vibração e tudo. Parecia que eu estava ouvindo, mano. O ginásio cheio de gente. Aí, meu Deus do céu. Mais um desconforto mental para subir naquele palco”.
O ginásio inteiro se movia. A luta começou. E assim como Pedro estudou o adversário, Joshgun Aliyev também havia estudado o jogo dele. Sabia que a mão forte do brasileiro era a direita e entendeu que, quebrando a pegada destra do crato-cuiabano, conseguiria levar a luta para uma disputa mental.
E então, o relógio já marcava Golden Score quando o corpo de Pedro Dantas começou a falhar. A estratégia ideal seria usar uma pegada com o braço esquerdo para confundir Joshgun Aliyev, mas aquele braço não levantava por conta da lesão.
2025 word2(Big, o treinador de Pedro, tentando cuidar da lesão do atleta. Crédito: Acervo Pessoal)
“E quando eu pegava, ele tentava estourar [a pegada] com as duas mãos. Se ele não conseguia, ele andava pra trás. Eu não conseguia puxar ele pra mim. E aí, quando ele andava pra lá, ou eu ia, ou eu soltava. Se eu soltasse, eu tomava um shido. Não podia soltar. Caramba, velho, não tava conseguindo. E aí, pô, vou lutar de [mão] esquerda. Quem disse que o braço sobe? Estava machucado. O braço não sobe”, lembra.
Pedro pediu forças a seu Toquinho, cujo nome estava ali, bordado em sua faixa preta. Mas também buscou forças em si mesmo. Lembrou de quando disputou o último estadual de judô e venceu com uma técnica diferente.
“E eu já tava achando que eu ia perder a luta. E aí, foi pro golden score, e eu segurando, segurando na fé. Segurando na fé. Do nada, velho, veio uma força. Não sei de onde que veio essa força. Que eu consegui fazer a pegada trocada com a direita. E aí, ele jogou uma mão nas minhas costas. Na hora que ele jogou a mão nas minhas costas, eu lembrei, na hora, de uma vez que eu estava lutando no estadual, e eu ganhei desse jeito. Porque eu ia pegar aqui, ele ia achar que eu ia entrar para direita, que eu tinha jogado o Quirguistão. Mas não. Eu entrei pro outro lado. Na hora que eu entrei pro outro lado, ele ficou nas minhas costas. Só virei. Na hora que eu virei, pum, ippon! Acabou!”

Enquanto isso, em Cuiabá, no Núcleo de Estudos e Práticas Umbandistas Caboclo Ventania, a gira corria. Devido ao fuso horário, enquanto Pedro lutava, os trabalhos na casa aconteciam simultaneamente. Gente em roda, cantando pontos, entidade baixando, vela acesa, atabaque marcando ritmo. Ali, o nome dele corria de boca em boca. Havia quem rezasse, quem mentalizasse, quem chamasse por proteção para o “menino de ouro” no Japão.
Na narrativa de Pedro, um detalhe faz essa cena ir além da coincidência de horário. Ele conta que, no meio do trabalho, seu Toquinho percebeu que ele estava perdendo a luta. E, segundo o relato, desincorporou do médium para ir, junto de outros guias, auxiliá-lo no plano espiritual enquanto ele passava por dificuldades no tatame em Tóquio.
E aí veio a pegada certa, o giro de quadril e a projeção do adversário ao chão do tatame. O corpo fez o que foi treinado para fazer desde os três anos de idade. E assim veio o ouro inédito para Mato Grosso e para o Brasil na história das Surdolimpíadas.
“Foi a primeira vez que eu chorei de felicidade na vida.” Não foi um choro contido. Foi um choro que durou dias, até Pedro voltar ao Brasil. O garoto que tinha atravessado bullying na escola, sarampo que tirou a audição, deslocamentos geográficos, rompimentos afetivos, jornadas de treino em silêncio, finalmente desabou. E, além de feliz, estava com saudades. Saudades do Brasil, da família e da avó que já morreu.
2025 word2(Pedro, Toquinho, sua avó e a medalha. Crédito: Acervo Pessoal)
Tudo passava pela cabeça ao mesmo tempo. Se tivesse ficado em Crato, não teria Instituto Reação, não teria Big e Guigui, não teria Secel bancando viagem. Se não tivesse entrado na loja de materiais religiosos naquele dia, não teria achado o Núcleo Caboclo Ventania. Se não tivesse ouvido o preto-velho em outra gira, anos antes, não teria começado a alinhar o próprio orgulho, não teria equilibrado o amor e transformado o judô em profissão. Se não tivesse quebrado o coração, não teria ido para Cuiabá. E se não tivesse pisado naquele tatame em Tóquio, não teria descoberto que era capaz de chorar de alegria.
Quando fala do futuro, Pedro volta a um princípio que aprendeu no tatame: “Nunca te orgulhes de haver vencido um adversário, porque a única vitória que perdura é a que se conquista sobre a própria ignorância”.
“Eu luto primeiro por mim, pra me tornar uma pessoa melhor, ser forte, conseguir ajudar quem merece”, diz. “Agora começa outra batalha, porque a responsabilidade é maior.”
Na próxima vez que entrar num tatame, é provável que ele leve de novo o nome de Toquinho bordado na faixa, a foto da avó no quimono, a lembrança do chão do ginásio japonês vibrando e a certeza de que, em alguma sala discreta de Cuiabá, alguém estará cantando ponto na mesma hora. Do que é feito um atleta campeão? No caso de Pedro Dantas, é fé, perseverança, força mental, treino, incentivo da família e o apoio do poder público que encontrou em Mato Grosso.
 

 

Fonte: Olhar Direto

Sobre o autor

Avatar de Redação

Redação

Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidária que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.