Um estudo publicado no periódico PNAS traz uma revisão importante sobre a história genética dos cães e também reacende o debate sobre até que ponto o DNA contribui para a personalidade de diferentes raças.
A pesquisa analisou 2.693 genomas de cães e lobos e encontrou um padrão que os pesquisadores consideram decisivo: a maior parte das raças modernas carrega pequenas frações de DNA de lobo.
Seria esperado encontrar algo assim, já que os cachorros descendem dos lobos na árvore evolutiva. A surpresa é que esses pedacinhos de DNA encontrados não vêm do processo inicial de domesticação, e sim de episódios de cruzamento posteriores, ocorridos ao longo dos últimos milhares de anos.
Essa constatação muda o entendimento tradicional, que atribuía quase toda a divergência entre cães e lobos ao período remoto em que as espécies se separaram. Agora, a evidência aponta que elas continuaram a cruzar entre si, ainda que raramente – e que esses cruzamentos deixaram marcas detectáveis no genoma dos cães atuais.
Os fragmentos herdados dos lobos são pequenos e estão espalhados pelo genoma, mas aparecem com frequência suficiente para mostrar que esse intercâmbio genético foi mais comum do que se imaginava.
Isso vale para raças de perfis muito diferentes entre si: desde cães de companhia como o Pug e o Shih-tzu, até raças maiores e de trabalho, como o Pastor Alemão, o Mastim Tibetano e o Husky Siberiano. Algumas raças conhecidas por terem passado por cruzamentos recentes com lobos – caso do Cão-Lobo Tchecoslovaco – exibem frações maiores, como esperado.
Mas o ponto central do estudo é que mesmo cães sem qualquer histórico moderno de mistura carregam, em proporções mínimas, trechos de ancestralidade lupina adquiridos muito tempo após a domesticação.
Para os autores, o interesse não está apenas na presença desses fragmentos, mas no que eles revelam sobre a evolução e o comportamento. Ao cruzar os dados genéticos com descrições padronizadas de comportamento usadas em clubes de raça, os pesquisadores encontraram associações consistentes.
Em raças que apresentam níveis muito baixos de ancestralidade lupina – como Labradores, Beagles ou Cavalier King Charles Spaniels – aparecem descrições mais frequentes de sociabilidade, facilidade de treino e busca ativa por interação humana.
Já raças com níveis um pouco mais altos – como Akitas, Chow-chows ou certos pastores de grande porte – tendem a ser associadas a perfis mais independentes, atentos, reservados ou desconfiados com estranhos. Mas isso não é uma regra, e os pesquisadores deixam claro que comportamento individual depende fortemente de ambiente e socialização.
Ainda assim, o padrão estatístico sugere que o passado compartilhado com os lobos deixou marcas que se refletem em tendências comportamentais observadas entre raças.
A influência dessa herança também aparece nos cães de vila, que vivem sem tutor em áreas rurais e urbanas de vários continentes. Nessas populações, os fragmentos de origem lupina se concentram em grupos de genes ligados ao olfato.
Essa distribuição indica que, para cães que precisam se orientar e sobreviver sem apoio humano direto, variantes derivadas de lobos podem ter oferecido vantagens funcionais, aumentando a capacidade de farejar e navegar no ambiente. É um exemplo concreto de como trechos muito antigos, mas adquiridos após a domesticação, continuam a ter impacto biológico.
Com esse conjunto de evidências – ancestralidade lupina detectável, presença dos fragmentos em regiões funcionais e associação com tendências comportamentais –, começa a surgir a possibilidade de testes genéticos mais precisos para estimar perfis de comportamento. Testes comerciais desse tipo já existem, mas se baseiam em bancos de dados pequenos e relações pouco consistentes.
O novo estudo fornece uma base genômica mais ampla e detalhada, capaz de orientar pesquisas que tentem prever predisposições gerais de sociabilidade, independência, vigilância ou sensibilidade a estímulos. Isso não significa prever exatamente como um filhote irá agir, mas entender tendências hereditárias que podem influenciar o comportamento.
Os autores reforçam que ainda há muito a investigar, principalmente para distinguir se certos comportamentos surgem diretamente de variantes herdadas dos lobos; ou se humanos, ao selecionar cães para tarefas específicas, acabaram preservando acidentalmente trechos que vêm dos lobos.
Mesmo com essas ressalvas, o estudo mostra que a personalidade dos cães não é construída apenas por ambiente ou convivência: parte dela está ligada a uma herança genética pouco reconhecida até agora.
Fonte: abril






