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Ciência & Saúde

Bactérias no Estômago: Vida Extraterrestre em Ambientes Extremos

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Às vezes nos esquecemos de como a vida pode ser extremamente maravilhosa, e como ela é um fenômeno especial e único. Até onde sabemos, existe apenas um planeta no Universo capaz de sustentar a vida, o nosso. E ela parece ter surgido apenas uma vez na forma de algo como os organismos procarióticos atuais. Entretanto, não perdemos a esperança de encontrar algo semelhante ao LUCA (Last Universal Common Ancestor, a célula que é a última ancestral comum da qual descendem todos os seres vivos que conhecemos) em nosso planeta.

Onde podemos procurá-los?

Desde que começamos a sonhar com marcianos, o panorama do conhecimento científico mudou significativamente. Os mais recentes rovers que percorreram a superfície de Marte, Perseverance e Curiosity, identificaram compostos orgânicos e minerais que sugerem que o planeta pode ter tido condições habitáveis no passado, mas isso é tudo. No momento, Marte é uma paisagem desértica avermelhada, atraente, mas morta. Não há criaturas verdes com cabeças grandes.

Mercúrio é uma rocha queimada próxima ao Sol, Vênus tem uma atmosfera tóxica e tórrida, e os outros planetas do Sistema Solar são gasosos ou estão muito distantes do Sol. Portanto, além de Marte, a busca por outras formas de vida está concentrada nos satélites, especialmente os de Júpiter e Saturno.

As luas Europa, de Júpiter, e Encélado, de Saturno, parecem ter grandes oceanos de água sob uma espessa crosta de gelo que poderiam abrigar moléculas orgânicas, os blocos de construção para origem da vida como a conhecemos. Essas moléculas não seriam como o ET, mas semelhantes aos organismos unicelulares terrestres mais simples.

Olhando para o futuro, mais de 5.500 planetas foram detectados em órbita de outras estrelas além do Sol. Apenas alguns são considerados potencialmente habitáveis e estão sendo investigados. Mas, como disse Carl Sagan em Contact: “O Universo é um lugar muito grande. Se formos apenas nós, é um terrível desperdício de espaço”.

Abrindo a mente para lugares inóspitos

Antes da década de 1960, as condições apresentadas pelas promissoras luas do Sistema Solar pareciam impossíveis para a vida.

A ideia predominante até então era que a vida só poderia ocorrer nas faixas de habitabilidade em que vimos organismos multicelulares sobreviverem: água, temperaturas amenas acima de 0⁰ C e abaixo de 40⁰ C, pH na faixa neutra, baixa salinidade, luz solar ou energia equivalente. Essas condições eram consideradas essenciais para a vida.

No entanto, em meados do século XX, o microbiologista Thomas D. Brock descobriu bactérias que viviam nas fontes termais do Parque Nacional de Yellowstone, onde as temperaturas ultrapassam 70⁰ C. Sem relação com isso na época, essa descoberta expandiu o sonho científico de encontrar vida extraterrestre.

Desde então, organismos extremófilos foram descobertos na Terra, sobrevivendo em uma variedade de condições extremas – desde o frio das fendas de gelo polar até as altas pressões das profundezas do oceano. Bactérias foram encontradas presas a pequenas partículas suspensas em nuvens, em ambientes extremamente salinos, como o Mar Morto, ou extremamente ácidos, como no Rio Tinto. Alguns extremófilos sobrevivem a altas pressões, e alguns são resistentes até mesmo a altos níveis de radiação.

O que também foi chocante foi encontrá-los dentro de nós.

‘Marcianos’ em nosso estômago

Na década de 1980, dois médicos australianos, Barry Marshall e Robin Warren, começaram a estudar as úlceras gastroduodenais. Até então, a condição era atribuída ao estresse ou ao excesso de secreção de ácido gástrico, o que pouco ajudava na condição do paciente.

Warren, como patologista, tendo identificado bactérias nas amostras de biópsia gástrica dos pacientes, achou claro que elas deveriam ser consideradas como agentes causadores da doença. Entretanto, ele teve que lutar contra o dogma de que os microrganismos não podiam se desenvolver nas condições extremas do ambiente ácido do estômago.

Até 1981, Warren havia feito sua pesquisa sozinho. Mas, naquele ano, ele conheceu Barry Marshall, que estava seguindo o programa de bolsas clínicas do Royal Australian College of Physicians, e foi abordado para colaborar com “a loucura de Warren, que está tentando transformar a gastrite em uma doença infecciosa”.

Em 2005, Barry Marshall e Robin Warren receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina pela descoberta da Helicobacter pylori e seu papel nas doenças gástricas, revolucionando o campo da gastroenterologia.

A H. pylori tem uma incrível variedade de fatores que a ajudam a sobreviver em hostilidade. Por exemplo, flagelos que lhe permitem surfar nos fluidos estomacais para se aproximar da parede do estômago, rompendo a camada protetora de muco e se fixando nela.

Com a enzima urease, a H. pylori degrada a ureia no estômago em amônia e CO₂, criando um microclima de pH mais alto que permite sua reprodução. À medida que seu número aumenta, ela libera exotoxinas que inflamam e destroem o tecido gástrico no estômago. É assim que as úlceras acabam se desenvolvendo, pois o tecido conjuntivo subjacente é exposto à acidez do estômago.

Aprendemos que, mesmo enganchada em nossas entranhas, nas paredes do interior rosado do estômago, sujeita a pHs semelhantes aos do vinagre, sem luz, atingida por movimentos peristálticos violentos e exposta a enzimas degradantes e ao arrasto gerado pela mistura de alimentos, a vida é capaz de resistir e proliferar.

O estudo de microrganismos extremófilos oferece a esperança de que em outros corpos do Sistema Solar, ou em alguns dos 5.500 exoplanetas já descobertos, mesmo em condições extremas, o extraordinário fenômeno da vida possa estar presente.

Os marcianos com os quais sonhamos hoje poderiam se parecer com o H. pylori, por que não?

 

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Fonte: abril

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