(, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 30 de novembro de 2024)
O presidente do , pelo que diz em pĂşblico e pelas decisões que toma, Ă© uma lanterna que funciona ao contrário: sempre que aponta para algum lugar, cria a escuridĂŁo imediata sobre tudo aquilo que atĂ© entĂŁo estava claro. A liberdade de expressĂŁo, um dos pontos mais luminosos da aventura humana, Ă© para ele e seus colegas uma doença social. Tem de ser combatida, como a febre amarela, e o ministro LuĂs Barroso faz isso criando o máximo possĂvel de treva no debate sobre o tema.
Sua Ăşltima barragem de artilharia contra o Direito Constitucional Ă palavra livre Ă© uma aula magna sobre os usos da sua lanterna da escuridĂŁo. A possĂvel revisĂŁo das normas que hoje regulam as redes sociais Ă© claramente um assunto do , e de ninguĂ©m mais. SĂł o Parlamento está autorizado a fazer leis no Brasil — uma auto evidĂŞncia Ăłbvia como o sol do meio-dia. NĂŁo interessa se sĂŁo boas, mĂ©dias ou ruins. SĂŁo as Ăşnicas possĂveis. Barroso e o STF discordam. Acham que sĂł eles fazem as leis “certas”.
No caso, o presidente do STF diz que os ministros estĂŁo criando a legislação de fato sobre a questĂŁo, ao julgarem processos relacionados a ela, porque o Congresso ainda nĂŁo aprovou nenhuma lei para regulamentar as redes sociais. “O tribunal aguardou, por um perĂodo bastante razoável, a sobrevinda de legislação por parte do Poder Legislativo”, diz Barroso. “NĂŁo ocorrendo, chegou a hora de decidirmos essa matĂ©ria”.
É a treva absoluta do oceano a 10 mil metros de profundidade — ali onde a luz não entra, nunca. Na verdade, é raro encontrar tanta falsidade num único pensamento. Onde está escrito, para começar, que o Congresso tem “prazo” para aprovar qualquer tipo de lei? Isso não existe. E quem define o que seria um prazo “razoável”? Prazo, na lei, é prazo: 24 horas, dez dias, 30 anos. Se não está escrito, não é nada. “Razoável” é um adjetivo; expressa uma opinião, e lei não tem adjetivo, nem opinião.
É integralmente falso, também, que não exista lei regulamentando o uso das redes sociais do Brasil. Existe, sim, há dez anos – é o marco civil da internet. O que não existe, na verdade, é uma lei que o STF goste. O regulamento em vigor preserva a liberdade de expressão, e a liberdade de expressão é a besta-fera fundamental que o STF quer eliminar no Brasil. Exigem a censura prévia e eterna, onde o cidadão é proibido de dizer até mesmo o que ainda não disse – é o que acontece quando lhe cassam o “perfil” e não devolvem.
A liberdade de palavra é uma conquista essencial da humanidade. Barroso, Moraes, Dino etc. acham que é propriedade privada do Estado, a ser dada nas doses que eles querem. Não há nada mais escuro.
Fonte: revistaoeste





