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Peru: O que esperar da nova presidente? Pelos precedentes, não chega ao fim

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Presidente que termina mandato virou raridade no Peru – e se termina, acaba preso ou foragido.

Pedro Castillo entrou nessa lista por vontade própria, com o patético autogolpe que ninguém obedeceu. Fez, dessa maneira enviesada, um bem para o Peru: seu governo não ia a lugar nenhum e a crise institucional tinha virado crônica.

Aliás, não ir a lugar nenhum também foi , nas circunstâncias, do que ir ao mundo paralelo inventando pelo Peru Livre, o partido marxista-leninista criado por Vladimir Cerrón, um neurocirurgião formado em Cuba que pretendia usar Pedro Castillo como fachada.

O programa do partido prometia uma “refundação” mais radical do que a da Venezuela, com uma constituinte para mudar tudo e propostas como nacionalizar as mineradoras estrangeiras que não pagassem ao Estado 80% de seus lucros.

“A plataforma que ele apresentou no primeiro turno parece saída da revolução de 1917”, resumiu, na época, Andrés Oppenheimer, comentarista argentino radicado nos Estados Unidos.

Para sorte do Peru, Castillo não levantou um lápis – o símbolo de sua campanha no ano passado – para fazer nada. Mais ainda, rompeu com o partido de extrema esquerda. Já a vice-presidente que agora assumiu, Dina Boluarte, foi expulsa depois de dizer que nunca tinha se identificado com a ideologia do Peru Livre. “Fiéis sempre, traidores nunca”, vociferou a direção do partido ao expulsá-la.

Conclusão: ela se tornou uma presidente praticamente sem apoio nenhum no Congresso, tal como se tornou o antecessor.

Em princípio, Dina Boluarte, advogada esquerdista de 60 anos, tem mais condições do que Castillo de entender as regras do jogo – segundo o El País, o ex-professor rural perguntou “O que é isso?” quando um assessor disse que o Congresso poderia quebrar seu sigilo bancário.

A nova presidente pediu “uma trégua política para formar um governo de união nacional” e disse que vai “combater a corrupção em todas as suas formas”.

Os mais escolados presumem que vai fazer exatamente o oposto, o que pode levá-la para o mesmo caminho de profunda instabilidade percorrido por Pedro Castillo.

A fraqueza institucional do Peru contrasta com resultados bons ou bastante razoáveis em economia, com aumento sistemático do PIB e redução da pobreza extrema (de 20,3% em 2001 para 5,8%).

“Vistas em perspectivas, as últimas três décadas foram talvez as melhores da história peruana; nenhum país pode mostrar um recorde igual em queda da pobreza”, disse à , antes do fracassado autogolpe, o economista e ex-ministro Waldo .

Entre os motivos do quadro econômico em descompasso com a desgraceira política mencionados pela reportagem figuram um banco central independente, com o mesmo presidente desde 2006, focado na santa trindade: equilíbrio fiscal, controle da inflação e manutenção do valor da moeda.

A criticada constituição, promulgada durante o governo de Alberto Fujimori, garante a empresas estrangeiras que investem em mineração que os contratos não podem ser alterados por leis feitas a posteriori. Garantir contratos, ainda mais numa área onde o vírus da desafia todas as “vacinas” aplicadas pela realidade, é um dos pilares para os investimentos estrangeiros – e, portanto, o desenvolvimento.

O Congresso também não pode aumentar os gastos públicos – e aparentemente o orçamento secreto é uma novidade que ainda não chegou a um país cujo Judiciário absorveu o ensinamentos da Lava Jato para combater outro mal de origem brasileira, a troca de contratos por dinheiro não contabilizado segundo o esquema propagado pela construtora Odebrecht.

A vigilância do Judiciário e a oposição no Congresso não darão vida fácil à nova presidente.

Quanto a seu antecessor, uma ironia final: preso pelos próprios seguranças quando tentava ir para a embaixada do México, ele acabou levado, algemado, para a mesma penitenciária onde Alberto Fujimori cumpre pena, aos 84 anos, quando não está hospitalizado.

Fonte: Veja

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