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**Benefícios do tédio: Como aproveitá-lo ao seu favor**

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  • em 2014, 55 estudantes se inscreveram em um experimento em troca de créditos na faculdade (1). Seria moleza: cada participante deveria ficar 15 minutos sentado em uma cadeira sozinho, sem fazer nada, nem mesmo cochilar.

    O único objeto com o qual se poderia interagir nesse intervalo era um botão. Quando apertado, eletrodos conectados nos calcanhares dos voluntários disparavam um choque. Eles sabiam disso, e a decisão de apertar ou não o botão cabia a cada um.

    Os estudantes já haviam sentido a intensidade da descarga elétrica em uma fase anterior do estudo e aprenderam que ela não era nada agradável. A maioria deles disse que pagaria para não sentir a dor novamente. Não havia motivo, então, para apertar o botão de graça.

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    O que aconteceu nesses 15 minutos surpreendeu os pesquisadores: 71% dos homens e 26% das mulheres participantes apertaram o botão pelo menos uma vez. Um voluntário fora da curva se deu o choque 190 vezes – média de um a cada cinco segundos. O Super Choque em pessoa.

    “Como o estudo é anônimo, infelizmente não tínhamos acesso ao contato dele. Eu adoraria ter feito algumas perguntas”, brinca Erin Westgate, professora de psicologia da Universidade da Flórida e uma das autoras da pesquisa. “Eu sempre me pergunto se ele se reconhece, se sabe que é mencionado tantas vezes por aí.”

    O estudo ficou famoso não só pelo caráter cômico mas também porque revela algo sobre as pessoas: muitos de nós preferem sentir um estímulo negativo do que estímulo nenhum. Essa ideia é corroborada por outro experimento (2), em que os participantes também tinham a oportunidade de dar choques em si próprios enquanto assistiam a filmes classificados em três tipos: tristes, neutros ou entediantes. O último grupo foi o que mais sentou o dedo no botão.

    Não é todo mundo que tem um dispositivo de choque à disposição para quebrar o tédio. Mas existe algo muito mais prazeroso guardado no bolso da calça, que usamos para passar o tempo em momentos que vão desde pausas curtas no banheiro até as longas tardes de domingo.

    O mundo passa em média 33,5 horas por semana consumindo mídia online, o que inclui vídeos no TikTok, notícias e séries da Netflix (3). Já a média brasileira é 53,5 horas, o que nos torna o quarto país com maior tempo de tela (ficamos atrás apenas de Quênia, Filipinas e México). Difícil encontrar um momento ocioso em que não estamos com a cara grudada na tela.

    É de imaginar que estaríamos mais entretidos do que nunca. Afinal, temos uma quantidade praticamente infinita de conteúdos online, que não conseguiríamos consumir nem em centenas de vidas. Mal lembramos como era encarar o teto na fila do banco ou da lotérica (afinal, até a presença física nesses lugares é dispensável na maioria dos casos). O médico atrasou? O Insta dá conta do tédio
    no consultório.

    Mesmo assim, pesquisas recentes mostram que o desinteresse está em alta – e que a busca imediata para sanar o tédio pode gerar um ciclo nocivo de retroalimentação. Separe alguns minutos para entender como os momentos de tédio e de ócio podem fazer bem, se você souber como usá-los.

    O lado interessante do tédio

    O tédio é insuportável – e é importante que seja assim. “Ele faz um ótimo trabalho em nos fazer trocar de atividade, ir procurar outra coisa”, diz Westgate, que é uma das maiores especialistas em tédio do mundo. Para a pesquisadora, uma possível explicação evolutiva para esse sentimento está em algo chamado “Problema do Quarto Escuro”. Vamos explicar.

    O principal objetivo do cérebro é prever o que vai acontecer. Isso vai desde coisas simples como “se eu estender minha mão, conseguirei pegar o graveto que está na minha frente” até “se eu fizer silêncio, esse predador não irá acordar”. Criar modelos cada vez mais precisos sobre como o mundo funciona faz parte da nossa evolução.

    Se aquilo que achamos que vai acontecer não bate com o que de fato acontece, há um erro de previsão – o que, ao longo da Pré-História, poderia colocar nossa vida em risco. Há duas maneiras de minimizar esse erro: ficar melhor nas previsões sobre o mundo ou se colocar em um lugar extremamente previsível, tipo o quarto branco do BBB (a analogia também funciona com um quarto escuro – o que importa é que nadinha de nada aconteça).

    Nesse suposto quarto, a reprodução e o aprendizado em contato com o mundo não seriam viáveis. É um beco sem saída evolutivo. Além disso, é uma opção bem mais entediante do que resolver aprimorar a capacidade preditiva. “O que nos impede de cair na armadilha do quarto escuro? Eu acho que a resposta é o tédio”, diz a pesquisadora. Ele nos motiva a sair e interagir com o mundo. O tédio foi importante para nossa sobrevivência. E, de certa forma, talvez ainda seja.

    Para os humanos modernos, sentir tédio funciona como uma notificação mental que diz “essa coisa que está capturando sua atenção não é significativa o suficiente”. É um motorzinho que faz você querer mudar de foco – seja buscando alguma outra atividade ou simplesmente sacando o celular.

    Ilustração cósmica, multicolorida, em estilo retrô. Vê-se, de forma aleatória, planetas e raios se chocando.
    Nossa mente sempre está buscando algo para focar. O tédio é um sinal de que a atenção não está direcionada para algo significativo. (Gustavo Magalhães/Superinteressante)

    Quando não há um estímulo externo que demande sua atenção (como na longínqua fila do banco), é possível que esse motor leve sua mente para um estado chamado “Rede de Modo Padrão” (Default Mode Network, em inglês). Você a conhece. É o devaneio. O sonhar acordado. Viajar na maionese.

    As regiões do cérebro não funcionam isoladamente. Elas agem em sincronia, às vezes formando padrões que se repetem em determinadas situações. Em exames de ressonância magnética funcional, é possível observar quais regiões da massa cinzenta estão mais ativas e identificar as combinações que se repetem. Esses padrões cerebrais são denominados redes neurais.

    Até 30 anos atrás, acreditava-se que o cérebro em descanso não seria lá muito relevante (4). Os estudos de ressonância magnética focavam em analisar as funções cerebrais durante a realização de alguma tarefa. Acontece que, no intervalo entre uma atividade e outra, enquanto o paciente estava sozinho com seus próprios pensamentos, um novo padrão começou a aparecer nos exames.

    Em outras palavras, certas partes do cérebro eram ativadas bem no momento em que a pessoa estava brisando. Essas regiões cerebrais eram as mesmas que ficavam em baixa durante a realização de atividades conscientes. Tal conjunto recebeu o nome de Rede de Modo Padrão (RMP), já que representaria o “padrão” da mente quando não estamos fazendo nada.

    Essa rede é considerada “oposta” à Rede de Atenção Dorsal, responsável por direcionar a atenção para tarefas externas. É que, na de Modo Padrão, a atenção está voltada para o mundinho interno. É quando temos reflexões sobre nós mesmos, planejamos o futuro e lembramos de memórias passadas.

    Um estudo de 2010 aponta que passamos metade do dia na rede padrão (5). Ela aparece principalmente durante atividades tão rotineiras que não exigem atenção externa, como tomar banho, lavar a louça ou pegar o ônibus para o trabalho. Se você sai do chuveiro sem ter certeza se passou o shampoo, é porque sua atenção estava voltada para dentro de si.

    Não é à toa que ideias geniais ou perguntas instigantes surgem no banho. A psicologia chama isso de efeito de incubação – um processamento inconsciente de pensamentos que pode levar a insights criativos.

    Uma das maneiras mais comuns de medir a criatividade em estudos é por meio do teste de usos alternativos. Basicamente, os participantes devem pensar em usos não óbvios para objetos comuns (exemplo: esquentar um tijolo para usá-lo como aquecedor de pés). Pesquisas mostram que pessoas que realizam atividades pouco exigentes antes dos testes têm ideias mais criativas do que aquelas que fizeram tarefas exigentes (6).

    Estudos de imagem também já mostraram que a Rede de Modo Padrão está relacionada à criatividade (7). É por isso que, às vezes, uma caminhada na rua ajuda mais na resolução de um problema do que ficar batendo a cabeça na frente do computador. Se essa caminhada for preenchida com tempo no celular, no entanto, o cérebro não entra no devaneio característico da RMP. É preciso pensar na morte da bezerra de vez em quando.

    “O celular te dá aquele dropzinho de emoção, de dopamina. E esse susto te mantém ali acordado, com a atenção voltada para fora”, diz Dráulio Araújo, pesquisador do Instituto do Cérebro da UFRN. “Você viaja muito pouco quando está no celular. É diferente de um livro, que não tem tanto estímulo e te permite divagar.”

    Tabela, em fundo rosa, com funções do cérebro.
    (Arte/Superinteressante)

    É difícil afirmar que estamos “sonhando acordados” com menos frequência em comparação a outras épocas. Não há estudos que tenham avaliado isso. No entanto, essa não seria uma hipótese absurda: nossas 53 horas semanais na frente das telas (mais de sete horas por dia) denunciam um padrão. Segundo um estudo publicado em 2020, um dos principais motivos para os jovens sacarem o celular é para, justamente, lidar com o tédio (8).

    Também sabemos que o consumo de vídeos curtos nos breves descansos entre tarefas está associado a uma piora na memória. Parece óbvio (afinal, quem nunca se perdeu no feed e esqueceu o que ia fazer?). Mas o teste pra valer foi feito por pesquisadores da Universidade Luís Maximiliano de Munique (9). Sessenta voluntários deveriam se lembrar de apertar certas teclas de acordo com as palavras que apareciam na tela de um computador. Entre as sessões da tarefa, eles deveriam passar dez minutos usando o Twitter, YouTube, TikTok ou fazendo nada.

    O grupo que ficou encarando o teto não apresentou piora na tarefa (na verdade, houve até uma ligeira melhora). Os grupos do YouTube e Twitter também se mantiveram estáveis. Já os que usaram o TikTok erraram 37,5% mais na atividade após acessarem a rede. Em outras palavras: mesmo que suas idas ao banheiro com o TikTok ou Reels pareçam inofensivas, é possível que elas estejam prejudicando sua capacidade de lembrar o que você planejava fazer em seguida.

    Hiperestimulados

    Nesse ponto, nos deparamos com um paradoxo: temos acesso à ferramenta de captura de atenção mais eficiente já criada pela humanidade – e que, à primeira vista, parece estar acabando com a sensação de tédio e desinteresse. Mas um estudo publicado na revista Nature em 2024 mostrou que, segundo pesquisas de autorrelato, as pessoas estão mais entediadas hoje em comparação com o início do século. Em especial, os jovens (10).

    Existem tipos diferentes de tédio. Westgate os classifica em “sabores”. Há o tédio inquieto, típico das crianças que inventam brincadeiras. O tédio que você sente em uma reunião que poderia ser um e-mail. Ou o tédio de quando está fazendo algo muito fácil. O sentimento entediante de hoje é bem diferente daquele de antes dos smartphones.

    “É contraintuitivo. Você esperaria que a estimulação constante nos deixasse menos entediados”, diz Rachel Barr, neurocientista pela Université Laval e autora do livro Por Dentro da Mente. “Rolar o feed das redes sociais pode ser associado ao tédio indiferente. É tipicamente alta estimulação e baixo engajamento.”

    Um estudo de 2022 avaliou o nível de fadiga e tédio de 83 pessoas a cada hora ao longo de um dia de trabalho e notou que elas tendiam a usar mais o celular quando essas duas variáveis estavam em alta. Até aí, nada fora do esperado. A surpresa veio depois: os trabalhadores relataram mais fadiga e tédio após o período no smartphone (11).

    O artigo da Nature também destaca o aumento do tédio como um resultado inusitado. “As mídias digitais podem intensificar o tédio por diversos caminhos. E a atenção dividida parece ser a maior culpada”, diz Rachel Barr.

    Ilustração cósmica, multicolorida, em estilo retrô. Vê-se, de forma aleatória, raios.
    O excesso de estímulos parece nos tirar do marasmo, mas é pura ilusão. Na verdade, ele pode criar um ciclo de tédio, que se retroalimenta. (Gustavo Magalhães/Superinteressante)

    Recapitulando: o tédio aparece quando não conseguimos focar em algo que faça sentido. Só que a troca rápida de atenção (seja entre vídeos curtos, aplicativos, mensagens ou tarefas no trabalho) nos impede de nos comprometer por tempo suficiente para que uma atividade se torne significativa. “Temos menos momentos desocupados, mas mais tédio como uma emoção de fundo”, diz a neurocientista.

    Com base em pesquisas anteriores, o estudo da Nature também aponta possíveis razões para o aumento do tédio. Uma delas é que, graças às novas formas de consumir conteúdo atualmente, não basta qualquer estímulo para nos manter engajados. Você já deve ter passado pela situação: um filme de duas horas, que antes o mantinha envolvido do início ao fim, de repente parece muito longo e desestimulante. Cada vez mais é difícil resistir ao impulso de pegar o celular durante a sessão.

    Esse comportamento é tão comum que já influencia as diretrizes da Netflix (12). Alguns roteiristas revelaram casos em que a empresa pediu que eles considerassem a existência de uma “segunda tela” – ou seja, um celular ou tablet na mão do espectador. Em filmes e séries considerados casuais, a audiência deve ser capaz de acompanhar a trama enquanto rola o feed. Dessa forma, os diálogos devem ser mais simples e descritivos, já que a pessoa pode não estar olhando para a TV enquanto “assiste” à série.

    Outra possível razão para o aumento do tédio é a falta de sentido e conectividade no que consumimos. Seu feed do Instagram pode alternar entre uma dancinha viral, uma notícia sobre a destruição de Gaza e uma receita de sobremesa. Enquanto jornais, livros e documentários tendem a apresentar os fatos de uma maneira mais aprofundada e narrativa, os feeds nos bombardeiam com pequenos trechos de uma variedade de assuntos.

    Uma das maneiras pelas quais o cérebro atua para encontrar sentido é buscando coerência no mundo ao seu redor – e esse não é o forte dos algoritmos. Se abrimos as redes sociais todas as vezes que sentimos uma fagulha de tédio, corremos o risco de cair em um poço sem fundo. “Não há muito incentivo para sair e fazer coisas que, na era pré-digital, o tédio nos motivava a fazer: aprender algo novo, tocar um instrumento, ligar para nossos amigos etc.”, diz Rachel Barr.

    O celular parece estar nos tirando do tédio – mas é cilada, Bino. Barr faz uma analogia entre o tédio e um outro sinal do corpo. “Pense na fome, que sinaliza que você deve comer e nutrir seu corpo para sobreviver. E imagine o scrolling como uma refeição que contém zero caloria ou nutriente, mas faz você se sentir cheio. Você ainda está com fome. Só não parece urgente, ou excessivamente desagradável. Você rola a tela, mas sua mente continua com fome.”

    Aqui entra outro paradoxo: se as tecnologias estão aumentando o nosso tédio, por que é que sentimos estar sobrecarregados e que não sobra tempo para nada?

    Ilustração cósmica, multicolorida, em estilo retrô. Vê-se, de forma aleatória, planetas e raios em forma de espiral.
    Quando não há um estímulo externo que demande sua atenção, sua mente pode se voltar para dentro, estimulando a autorreflexão. (Gustavo Magalhães/Superinteressante)

    (Não) trabalhe enquanto eles dormem

    Bertrand Russell, um dos grandes matemáticos e filósofos do século 20, defendia que o avanço da tecnologia já permitia reduzir a jornada de trabalho para quatro horas diárias sem mudança no salário. Essa ideia está em seu livro O Elogio ao Ócio, de 1935.

    A promessa de tempo livre como consequência das tecnologias não é nova. Aristóteles acreditava que a automação do trabalho poderia liberar tempo para o ócio, um período em que o indivíduo poderia se dedicar a refletir sobre filosofia, política e matemática (13). Segundo o pensador grego, isso é o que nos faria realmente humanos.

    Não foi o que aconteceu. Propostas de redução de jornada de trabalho sempre caminharam a passos vagarosos. Influencers e coaches na internet vendem rotinas produtivas irreais, com afazeres que começam às 4h da manhã e terminam às 22h. A própria ideia de tempo ocioso, sem nenhuma tarefa, é vista com maus olhos.

    Exemplo disso está na própria legislação brasileira com a “lei da vadiagem”, proposta em 1941. Ela classifica como contravenção penal “entregar-se habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho”, com pena de 15 dias a três meses de reclusão. Ainda que ninguém a aplique hoje, ela jamais foi descartada.

    O sociólogo italiano Domenico de Masi tentou reverter essa conotação negativa com o conceito de “ócio criativo”. Para ele, o período não produtivo é importante para a criatividade e a busca por significado. Detalhe: o livro que aborda esse tema foi publicado em 1995, quando nem sequer conhecíamos a Rede de Modo Padrão do cérebro. Hoje, as pecinhas se encaixam.

    “As pessoas muitas vezes não conseguem relaxar no tempo livre, porque parece que elas sentem culpa por não estar sendo produtivas”, diz o psicólogo Lucas Freire, autor do livro Exaustos: Imaginando Saídas para o Cansaço Diário. Ele defende a valorização de atividades lúdicas como uma forma de reconexão com nós mesmos e com o mundo ao redor.

    “Você vai ver pessoas falando: leia livros que tenham a ver com o seu trabalho; ou transforme seu hobby em um trabalho […] A ideia de produtividade contínua cria uma atrofia lúdica”, diz Freire. De fato: um estudo feito nos EUA mostra que o número de pessoas que leem por puro prazer caiu 40% nos últimos 20 anos (14).

    “Quando você transforma as pessoas em commodities que podem ser ‘melhoradas’, geralmente você as está separando do que realmente importa e faz sentido para elas”, diz Erin Westgate. “Viver uma vida extremamente ocupada impede as pessoas de ter que pensar e se engajar com seus próprios pensamentos e sua vida em um nível mais profundo.”

    Para quebrar essa tendência, segundo Freire, um dos primeiros passos seria recuperar a autonomia da nossa própria atenção. Não ceder ao buraco negro do algoritmo, à cultura da produtividade e à vontade de postar cada passo seu seriam maneiras de encontrar tempo para o ócio.

    Ilustração cósmica, multicolorida, em estilo retrô.
    O tédio nos motiva a participar de atividades significativas, estimula a criatividade e incita ideias para entendermos quem somos. (Gustavo Magalhães/Superinteressante)

    Aprenda a ouvir

    Tempo ocioso não necessariamente leva ao tédio; e o tédio não aparece só nos tempos ociosos. Mas os dois conceitos têm alguma correlação, na medida em que são convites a experiências significativas. No fundo, o que importa é como você aceita e lida com eles.

    “Ouço muita gente falando que precisamos sentir mais tédio, mas não é isso. Acho que só precisamos recuperar o nosso próprio tempo”, diz Westgate. “Com sorte, não o usaremos de forma entediante.”

    Até porque estar entediado com muita frequência pode ser indicativo de que o indivíduo não vê sentido na vida, no trabalho, ou em como passa o tempo livre. Além disso, um aumento excessivo na atividade da Rede de Modo Padrão está associado à ruminação – uma espiral de pensamentos negativos e autojulgamentos característica da depressão (15). O importante, como sempre, é o equilíbrio.

    O aumento do tédio observado no estudo da Nature coincide com uma outra tendência entre adolescentes: o sentimento de que a vida não faz sentido. Um levantamento com meio milhão de estudantes estadunidenses pedia que eles avaliassem frases como “a vida normalmente parece sem sentido”, “sinto que não consigo fazer nada direito”, “minha vida não é muito útil”. Em 2010, apenas 12% dos jovens concordavam que algumas dessas frases se aplicavam a eles. Em 2015, já eram 22% (16).

    O tédio não é bom ou ruim. Em excesso, pode ser uma mensagem de que algo não vai bem. Ao mesmo tempo, quando tentamos eliminar qualquer fagulha desse sentimento – seja pegando o celular ou enchendo a rotina de afazeres –, perdemos a oportunidade de nos conectarmos com o que importa para nós.

    No fundo, ele nada mais é do que um sinal do seu corpo em busca de significado. O tédio nos motiva a fazer atividades que tenham sentido; estimula a criatividade para inventarmos algo novo; ou, até, incita reflexões e perguntas difíceis para entendermos quem somos.

    Na próxima vez que estiver entediado, resista ao impulso de pegar o celular. Pense no tédio de outrora (o da fila do banco, o da caminhada desconectado). Ele dava espaço para refletir e ouvir o que seu corpo tem a dizer. Pode ser mais interessante do que deslizar o dedo e assistir ao próximo vídeo feito por IA.

    Referências: (1) artigo Just think: the challenges of the disengaged mind; (2) artigo Self-inflicted pain out of boredom; (3) Digital 2026 Global Overview Report; (4)artigo 20 years of the default mode network: A review and synthesis; (5) artigo A wandering mind is an unhappy mind; (6) artigo Inspired by Distraction: Mind Wandering Facilitates Creative Incubation;  (7) ​​artigo Functional Realignment of Frontoparietal Subnetworks during Divergent Creative Thinking; (8) artigo Bored and online: Reasons for using social media, problematic social networking site use, and behavioral outcomes across the transition from adolescence to emerging adulthood (9) artigo Short-Form Videos Degrade Our Capacity to Retain Intentions: Effect of Context Switching On Prospective Memory; (10) artigo “People are increasingly bored in our digital age”; (11) artigo Fatigue, boredom and objectively measured smartphone use at work; (12) texto Too distracted to watch? Netflix has the perfect ‘second-screen’ show for you; (13) livro A Política, de Aristóteles; (14) artigo “The decline in reading for pleasure over 20 years of the American Time Use Survey”; (15) artigo Depressive Rumination, the Default-Mode Network, and the Dark Matter of Clinical Neuroscience; (16) artigo Increases in Depressive Symptoms, Suicide-Related Outcomes, and Suicide Rates Among U.S. Adolescents After 2010 and Links to Increased New Media Screen Time

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    Fonte: abril

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